sábado, 27 de junho de 2009

Uma pausa

As desculpas a quem forem devidas...
Fiquei de criar um blogue onde a história do GEFAC pudesse ser divulgada, entre todos os que ainda podem sorrir com a saudade do que vivemos.

Coloquei o primeiro post já lá vai um tempo.
Agora aparecem de rajada mais uns quantos...

Minha culpa!
Eles já estavam prontos para publicar e a dedicação da Celeste Nunes
não tem que ver com este atraso.
Obrigado Celeste!

Aconteceu... mas MAIS VALE TARDE...

Um abraço de saudade do

João Correia, João Durão ou apenas João
(os nomes dependem da época - eu sou o mesmo)

...chão, bico, bico... chão...

Por ISABEL GODINHO

GEFAC! GEFAC! GEFAC! ALIÁS! ALIÁS! ALIÁS!
O TRIGO DO JOIO

Que foi o GEFAC p'ra mim?

Foi muito importante?

Ou só assim assim?

Vejamos então!

Analisemos o caso,

Ponhamos em equação,

A raiz quadrada acharemos

E após a potenciação

Encontraremos... a solução.

Que não é senão:

Claro que sim!

Um grupo só será grupo

Com pessoas a viver,

E a crescer.

E neste caso a dançar

E a cantar...

Mas também a discutir,

Filosofar,

Politicar,

Sempre a rir...

E estas pessoas quem são?

Vejamos então:

O Borges Pinto e o Zé Maria

O Pais Borges e o Rui Faria

E já que falo em Rui...

O Tranquile e o Marinhos.

E a Fátima Milheirinhos

Pequenina como a Bemardete.

E lembro-me da Isolete

(Que era a cara mais bonita)

E ainda da Lisete.

Não posso nunca esquecer

O Nuno e o Eduardo

De apelido Machado

E também Cruz

Que eram lindos a valer...

O primeiro quase casado

Com a Isabel

Que tinha nome de Lobo sem o ser.

O segundo, solteiro,

Inspirava amor verdadeiro

Com seu sorriso matreiro

A todas as sócias novas

Que ao Gefac o iam ver.

E suspiravam, por ele não corresponder.

Mas logo vinha o Natário

De amores quase a morrer

Por qualquer sócia novinha,

Por qualquer cara bonita

Que pudesse aparecer.


Mas já que se fala em "Novos"

Vem-me à memória um rapaz:

O Eduardo Brás

Que com o seu acordeão

Tocava sempre a valsinha

Pois todos com ele aprenderão

O bico, bico, chão.


Para o bico, bico chão

Era a Fernanda a mestra

Ensinando a dançar,

O vira ou a chula

Saltado ou quebrado

Braços em baixo ou no ar

Meia volta e troca o par.


Duas meninas marcavam

Selecta presença

A Melinha e a Leonor.

A primeira de olhar superior

Mas tão terno.

A segunda corpo moldado por escultor,

De idade indefinida

Refilona como poucas

(Desculpa lá o meu despudor!)


O Carlos Bento

Olho azul, seu grande orgulho

Andava bem penteado

Bem vestido e arreado

Dançava sempre a perceito

Apertando bem no peito

A moça que em sorte lhe saísse

Desde que visse

Que namorado não tinha.

Penso que foi sua madrinha

A São Taborda, das velhas

A mais velhinha.


Comigo entrou

O Magalhães

Luís de seu nome,

Que logo se apaixonou,

Pelo Gefac é claro

Pois doutras paixões

Penou

Que pr' áqui não são chamadas

Por ALBERTO MOREIRA

VIAGEM AO ALGARVE - ALVOR

No mês de Outubro de 1975, o Gefac deslocou-se ao Algarve, concretamente ao Alvor, para dar um espectáculo, integrado num congresso de Turismo que aí se realizava.

Para mim constituiu uma dupla satisfação, dado que, por um lado, com a idade de vinte e dois anos, ainda não tinha visitado o Algarve, e por outro, constituía mais uma oportunidade para cimentar os laços de amizade e companheirismo entre todos os componentes do Grupo.

Como a estadia era de dois dias, o facto de pernoitar, pela primeira vez, num Hotel, tomar banho no mar em pleno mês de Outubro, quando na minha região estava a chover, era motivo de satisfação. Vejam como eram os tempos de então!

Esta digressão constituía um autêntico luxo.

A noite do espectáculo, que se realizou na "Adega" foi uma autêntica aventura.

Eu actuava nas regiões do Minho e Beira e toma-se necessário mudar de traje com a rapidez possível. Que confusão!

Para complicar o esquema o companheiro Nuno Cruz, depois de actuar como vocalista na região do Minho, deu-lhe um ataque de nervos, por pensar que a sua prestação tinha sido menos conseguida, (o que não foi verdade, pois actuou muito bem), tendo sido preciso vários homens para o segurar, de modo a que não se percebesse o que se estava a passar.

Mas no final, tudo correu normalmente, tendo o Gefac dado um excelente espectáculo que foi apreciado por todos os congressistas nacionais e estrangeiros, sendo proporcionado um convívio excelente entre todos, até altas horas da madrugada.

Este episódio, além de outros, foi para mim muito marcante, pois "à custa" do Gefac foi-me proporcionado muitas regalias que de outro modo não era possível.

Ponte de Lima, 03/06/2003

Alberto Moreira

Por LUIS NUNES

Luis Manuel de Jesus Garção Nunes

Sócio n° 311 ( n° que não corresponde à realidade pois apesar de já ser sócio, só passado mais de um ano é que me fizeram o cartão, e consequentemente atribuíram um número). Esta j á poderia ser uma história gefaquiana.

Meus Amigos

Lembro-me duma vez que o GEF AC foi para a Alemanha, de autocarro, e como o material era muito, as bagagens pessoais iam no tejadilho do mesmo. Com tanto carrega e descarrega, numa deslocação duma cidade para outra, na auto-estrada as malas saíram em grande velocidade de cima do autocarro espalhando-se por várias centenas de metros. Espalharam-se algumas malas o que causou algum embaraço aos automobilistas que iam passando. Lá parámos e felizmente recolheu-se tudo.

Era costume na altura, neste tipo de viagens, nas paragens fazer-se a "chamada" para ver se não faltava ninguém. Como éramos muitos e as paragens eram mais decidimos atribuir um número a cada um. Deste modo a "chamada" era feita por cada um de nós, ou seja o nº 1 dizia 1 depois o 2 dizia 2 e assim sucessivamente. Certa vez numa área de serviço numa auto-estrada na Alemanha começou esta chamada e ao mesmo tempo o motorista foi arrancando devagarinho. Andaram-se umas dezenas de metros já fora da área de serviço, quando se notou que havia um nº que não dizia nada. Chegou-se à conclusão que faltava o Julinho (ou o Asterix). Parou-se o autocarro e como resolver o problema?? O motorista não está de modas e começa a andar de marcha atrás, passados alguns segundos/minutos (nestas alturas o tempo é muito longo) vemos o Julinho a correr pela auto-estrada em direcção ao autocarro.

Falei que o Julinho era também conhecido pelo Asterix. Isto tem a ver com uma viagem em que resolvemos dar nomes da Banda Desenhada a todos os elementos. Obviamente não me lembro de todos, no entanto se se vasculhar pelos arquivos da altura, veremos quem eram os sócios e pode ser que os encontremos todos. Seguem alguns dos que me lembro:


Julinho

Gamboa

Maria João Simões

Rui Bento (Já falecido) Adolfo

Fernando Varela Salazar

João Curto

Eu

Manuela Pina

Altino


Axterix

Obelix

Gata Chalupa (era a gata que passava a vida a atirar tijolos ao Ignatz)

Ignatz

Perna Longa

Avrell Dalton

Urtigão

Capitão Adhoc

Bozo

Olívia Palito

O Bardo

Arnaldo

Carlos ?????(Tocata) Carlos Melo Narino

Cidália Vinhas Lúcia

Luis Anastácio Teresa Mendonça Teresa Meirinhos Dulcínia

Luis Magalhães Lurdes Bela Manel(Passareta) Aires Santos

Rui Leite


Lobo Mau Peninha

Prof Pardal Dupont (Tim- Tim) Magapatalógica Madame Min Mancha Negra


Nota: Pode ser que haja quem se lembre de mais.


Normalmente no 25 de Abril ou no 10 de Maio o GEFAC ia sempre ao Alentejo, para a zona de Évora. Certa vez fomos bem cedo e almoçámos por lá juntamente com grupos de Alentejanos. O almoço foi bem regado com "água" do Redondo. De tal forma que depois do almoço estava combinado ensaiar Pauliteiros pois havia um ou outro elemento novo que precisava de ensaio. Fomos para o Teatro Garcia de Resende Évora e a Tocata era o João Curto - Gaita de Foles, eu - Caixa e o Manel (passareta)Bombo. O João Curto estava muito "animado" pois a "água" era boa. Começámos por ensaiar os Oficios Seguidamente os dançarinos queriam o salto de Castelo e o João vai de começar novamente os Ofícios. Não se lembrava da música. Trauteou-se O Salto de Castelo e ele diz que sim. Começa de novo e de novo com os Ofícios. Fizeram-se muitas tentativas, para o Salto de Castelo, para o Padre António, mas o resultado era sempre o mesmo. Só conseguia tocar os Ofícios.


Doutra vez, também no Garcia de Resende em Évora. Entramos para cantar Alentejanos.

O solista era o Natário e entra a cantar:


Já chove já está chovendo Já correm nos barranquinhos

JÁ ME ESQUECI DA LETRA

JÁ ME ESQUECI DA LETRA

JÁ ME ESQUECI DA LETRA


Claro que nesta altura já estava tudo à gargalhada na plateia e no palco, até que alguém da plateia (ou não se estivesse no Alentejo) acabou a quadra.



NOTA:

ISTO SÃO SÁ ALGUMAS LEMBRANÇAS.

TALVEZ FOSSE BOM JUNTAR VÁRIAS PESSOAS DESTA ÉPOCA PARA ACERTAR E CORRIGIR EVENTUAIS ERROS ASSIM COMO LEMBRAR OUTROS.

A PROSA ESTÁ HORRIVEL MAS PENSO QUE PARA JÁ SERVE. FUI ESCREVENDO À MEDIDA QUE ME IA LEMBRANDO DAS COISAS.

SE QUISEREM DEPOIS PODEMOS CORRIGIR ISTO.

ABRAÇOS.

LUIS MANUEL

Por PAIS BORGES

JORNADA DE CASTELO BRANCO


Uma das jornadas mais marcantes da história do GEF AC foi, sem dúvida, a do espectáculo no Cine-Teatro de Castelo Branco, no dia 15 de Maio de 1970, integrado nas comemorações do 130 aniversário da Orquestra Típica Albicastrense (vd. recorte de jornal junto), com toda a envolvência social, política e melodramática que o rodeou, e que nos fez sair do Cine-Teatro escoltados pela Polícia, com detenções pelo meio, e um regresso atribulado a Coimbra altas horas da manhã, após a intervenção do Reitor da Universidade.

Decorrido apenas um ano sobre a crise académica de 1969, era normal uma apertada vigilância da PIDE sobre as actuações dos organismos académicos, sobretudo em deslocações a localidades da província.

Daí que, nesse dia, tenhamos sido "acompanhados", de forma mais ou menos disfarçada, até Castelo Branco, até porque o autocarro em que seguíamos ostentava no vidro traseiro um cartaz alusivo à situação na Academia, e, pelo caminho, saíam de quando em vez pela janela uns comunicados da Direcção-Geral da AAC, em que se informava a população sobre a luta estudantil.

Ao chegarmos a Castelo Branco, pelas 18 horas, e após descarregarmos o material no Cine-Teatro, apercebemo-nos de que do outro lado da praça (uma praça ampla e com muitas árvores), se situava um Quartel Militar

É evidente que alguns sócios começaram a meter conversa com os soldados, junto à rede de vedação do quartel, o que terá motivado alguma preocupação junto das autoridades locais. Com efeito, passado algum tempo, fomo-nos apercebendo da presença, junto a cada árvore da praça, daquelas figuras sinistras, de fato escuro, gabardine e chapéu enterrado na cabeça, de silhueta carregada, a controlar disfarçadamente todos os movimentos dos subversivos intrusos coimbrãos.

À noite, o espectáculo decorreu sob forte tensão emocional, pois que havia polícias dentro do Teatro, nos próprios bastidores, alegadamente (segundo a Organização) por "razões de segurança", situação que gerou justificada revolta dos sócios e da direcção do organismo.

Cerca das 23 horas, quando decorria uma declamação de poesia, gerou-se grande burburinho dentro do Teatro, tendo a Polícia irrompido bastidores adentro, ordenando o imediato encerramento do espectáculo.

Soube-se, entretanto, que a Mena Delgado tinha sido momentos antes detida pela Polícia no exterior do Teatro, a distribuir comunicados à população, e que a Polícia exigiu fazer uma revista ao autocarro, em busca de mais material subversivo, tendo passado a pente fino o interior do veículo e toda a bagagem encontrada.

Alguém da direcção conseguiu entretanto anunciar, no palco, que o espectáculo tinha sido interrompido por ordem expressa da Polícia.

Com a natural confusão entretanto gerada, e com muitos nervos à mistura, saímos do Cine-Teatro, arrumámos o material no autocarro, e aguardámos a chegada dos elementos da Direcção que, entretanto, tinham sido levados à esquadra para serem identificados.

Com a chegada deles e da Mena Delgado, soubemos que só com a intervenção do Reitor da Universidade, contactado telefonicamente pelo Comandante da Polícia cerca da meia-noite, e que se responsabilizou pessoalmente por todos os elementos

do organismo, tinha sido autorizada a sua libertação e regresso a Coimbra.

Ponderou-se, então, regressar de imediato a Coimbra sem a habitual refeição que nos estava preparada num restaurante próximo, como protesto pela actuação policial verificada.

Por insistência de elementos da Organização, acabámos por nos dirigir para o citado restaurante, dentro do qual, para nosso espanto, se encontravam alguns polícias.

Foi o entornar definitivo do caldo, já de si demasiado azedo! Até aqui? Perguntavam todos. E um choro incontido, de revolta e de mágoa, apoderou-se de muitos de nós, alimentando definitivamente a vontade de abandonar aquele local sinistro.

Interpretando e dando voz ao sentir de todos os sócios, o saudoso Rui Jorge, então Presidente da Direcção, pediu de imediato a palavra e, dirigindo-se a todos os presentes, de voz embargada pelas lágrimas, informou que não estavam reunidas condições para nos mantermos por mais tempo naquele local, pelo que iríamos todos sair ordeiramente e regressar a Coimbra.

Todos os presentes - incluíndo o próprio Comandante da Polícia manifestaram espanto pela atitude tomada, que diziam não compreender (então agora que estava tudo serenado!...), e vieram calmamente acompanhar-nos até ao autocarro.

No dia seguinte, como se lê no recorte do jornal, a imprensa informava que o espectáculo fora interrompido por intervenção policial "porque passavam dez minutos da hora autorizada para o terminus do espectáculo".

Tempos memoráveis!

(Luís Pais Borges)

Por CARLOS MONTEVERDE

FACTOS QUE FIZERAM O GEFAC

É com todo o gosto e por obrigação, que venho colaborar para o livro do GEFAC., que como já disse num dos nossos aniversários, devia fazer parte do programa das nossas escolas. Há lá merdas bem piores.

Fui dos que vivi tantas coisas no nosso Organismo. Nenhuma que se compare ao 25 de Abril, naturalmente.

E talvez poucos se lembrem, e por isso venho lembrar.

O GEFAC, tinha nos primeiros anos, uma Sala para a Direcção no 3° ou 4° piso da AAC., e uma sala de ensaios, para ensaios e reuniões.

No dia 25 de Abril de 1974, a meio da tarde, já tinhamos colocado um papel na porta da sala se ensaios, a dizer que o GEFAC estava com a Revolução. E no dia seguinte, 26 de Abril, fazendo eu parte da estrutura ad-hoc que expulsara e ocupara as salas dos chamados Organismos Fascistas, que eram a Tuna, o Orfeon e a OTEC, logo ocupamos para o GEFAC, as cinco salas do 1° piso, que pertenciam à OTEC.

Foi uma ocupação "selvagem", fundamental para o "Salto" que demos em todos os domínios, e que nos deu espaço, para o "espaço" enorme que o GEFAC ocupa hoje em termos culturais.

Depois há tantas outras histórias. Permitam- me só recordar uma. Aquela saída a Castelo Branco, em que depois da PIDE prender alguns sócios que distribuiam comunicados à população, o Rui Jorge que era o Presidente, chorou. Hoje chorámos nós por ele.

Há coisas que nunca esquecemos. Façam o Livro.

Beja, 31 de Maio de 2003

Monteverde

Por ISABEL LEMOS

Alguns olhares, outros ecos

Olha a linha!

Grita o Pintão

desesperado

com certa razão...

Cerrando

Saltando

Picando

"Sigà rusga,

"Sigà rusga"

Lá íamos batendo

O bico, bico, chão

Ecos da minha passagem pelo G.E.F.A C. ( breve demais para meu gosto) mas que marcou o resto da minha vida. São sons e imagens: rostos, cenários e rituais, soltos e desarrumados que surgem em catadupa . O grito um pouco tonto: "GEFAC, GEFAC, GEFAC, aliás!, aliás!, aliás!; a cantiga brejeira. “Namorei uma sopeira... “; o

Monteverde batendo com o abano no cântaro até ao dia em que o abano voou sobre a assistência e o contraponto com as "pinhas" passou a ser um tímido tic-tic do pau de suporte a bater no barro... ; eu a desaparecer misteriosamente de cima de um qualquer palco, naufragando no pano de fundo daquele que me conduziu inexoravelmente para baixo do palco enquanto o Rui Pinto Ferreira vociferava incrédulo por ter perdido o par; as inúmeras discussões do carrega, descarrega a camioneta, aquando das saídas, as histórias de veracidade muito duvidosa que introduziam as danças da Nazaré: "Não vás ao mar, Toino! Tá mar ruim, Toino!"; a voz profunda do Luís Pais Borges a dizer aquele magnífico texto de José Cardoso Pires ao som da guitarra de Carlos Paredes; o Fernando Luís a cantar emocionado e comovendo até ao fundo toda a plateia suspensa do Gil Vicente mas... com as letras das cantigas do Zeca pregadas nas costas do Rui Pato que o acompanhava magnificamente com a sua viola...

Foi assim que, entre os gritos desesperados do Pintão, dos sorrisos abertos ou coxos do João, do acordeão do Normando ou do Rui, a menina do Porto, envolta em algodão corde-rosa e doce, fez a descoberta da resistência, da coragem, da solidariedade e da criatividade e fez-se mulher que tenta viver a cidadania com coragem, verticalidade e apesar de ventos adversos ainda com esperança no futuro.

Maria Isabel Lemos ( 1970- 1972)

Por CELESTE NUNES

Testemunhos - GEFAC


Em 1966, procurando na Associação Académica um organismo vocacionado para as danças regionais, alguém nos indicou, a Fernanda e a mim, a Tuna.

Tinha existido o GUDR e havia intenção de criar um grupo de danças regionais ligado à Tuna, segundo nos disseram no corredor da Associação.

Fomos à Tuna, onde encontrámos o Matos Pereira, a quem nos inscrevemos. Disse até que éramos as primeiras a fazer inscrição. Estava também presente o Luís Plácido.

Começaram os ensaios com o Pintão ( que tinha sido do GUDR) e as danças eram só da região do Minho. Os fatos foram pedidos ao coro misto que também tivera danças regionais ou onde estavam(??) os fatos do GUDR(??)

O primeiro espectáculo foi na Faculdade de Letras para o Curso de estrangeiros, só com Minho e depois em Novembro participamos no espectáculo da Tomada da Bastilha, 25 de Novembro. Para além da nossa participação, esse espectáculo contou com a participação de Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso.

Penso que nesse ano já fomos a Arazede, por intermédio do Rui Jorge a uma Associa- ção que ainda hoje existe, e à qual ficámos fiéis pois era sempre aí o espectáculo de estreia do ano ( e onde éramos muito acarinhados com belo bacalhau e feijoada)

Para ensaiar a Nazaré, veio entretanto uma Alcina (não sei se era da Guarda e parece-me que já estava a trabalhar), o Zé Miranda veio ensaiar a Beira. Veio ainda o Manuel Leão e a Zaida. Constituíram-se assim três grupos: Minho, Nazaré e Beira. Este último, dançado por elementos dos outros dois. Pontualmente o Álvaro Laborinho Lúcio, então a frequentar o 5º ano de Direito (?), carreira de magistrados, ensaiava a Nazaré (terra da sua naturalidade). É ele também o autor de um pequeno livro sobre a Nazaré que deve existir no GEFAC.

Enquanto as raparigas se dividiam entre as várias regiões, os rapazes dançavam quase tudo porque eram poucos (direi mesmo à justa).

Na tocata o instrumento, quase único, era o acordeão um cavaquinho, ferrinhos, pouco mais. Quanto à cantadeira do Minho, a estridência da voz da Fernanda encheu o Teatro Avenida, lembrando mesmo a voz “esganiçada do Minho”.

Houve algumas perturbações no início, fruto de divergências de quem tinha apadrinhado a existência do grupo - supostamente de danças regionais da Tuna. Houve divergências entre ser-se uma secção da Tuna ou ao contrário, um organismo autónomo. Venceu esta proposta, numa Assembleia Geral muito participada e cheia de tenções.

Foram aprovados estatutos, solicitada a autonomia à Reitoria, mas dadas as característi-

cas do grupo, de cultura popular, de valorização do património folclórico português, acompanhado de denúncia da situação desse mesmo povo, era considerado um organis- mo perigoso para o regime pelo que era desaconselhada autonomia. Esta daria um pouco mais de poder económico ao grupo e consequente possibilidade de desenvolver mais a sua actividade. Assim, até 1971 (ano em que saí do Gefac) o organismo viveu com um subsídio da Reitoria, no montante de cinco mil escudos, hoje vinte e cinco euros.

Foram muitas as vivências dos que passámos pelo Gefac, ensaios, viagens, espectácu-

los, momentos de luta política. A Academia lutava contra um inimigo comum – o fascismo. Alguns organismos tinham a protecção do regime. Quando nós tínhamos só os magros cinco mil escudos, o Orfeão para além do subsídio de organismo autónomo, chegou a ter, vindos directamente do Ministro da Educação, através de (?)Viana, cem mil escudos. Isto sem falar na OTEC, a meu ver criada para servir o regime (disso falaremos mais adiante).



Cada vez que alguém se estreava num espectáculo fazia-se um baptismo as raparigas tinham um padrinho e os rapazes uma madrinha. Em Arazede ter-se-ão verificado o maior número de baptismos da época, já que era quase sempre aí o espectáculo de estreia. Foi em Arazede que no ano em que o Zé Tó ( José António Fraga Carneiro) se recusou a ser baptizado, arranjou uma discussão enorme no ambiente, mas acabou por aceder e lá se ultrapassou o problema. Acusava a atitude de reaccionária...

Nas deslocações a Arazede a comida era sempre em abundância e lembro-me do grupo de fados que nos acompanhava, muitas vezes, ser um grupo de Cabo Verde ( Nito Bárrio Vieira e outros) que normalmente comia a feijoada em enormes alguidares de plástico. Eram rapazes de grande sustento, embora de baixa estatura. Havia ainda outro grupo de fados ( Paulinho e Custódio), destes lembro-me que o Custódio tinha sempre um frasco debaixo da capa com aguardente e mel para ir molhando a garganta para cantar melhor...

Inicialmente os espectáculos tinham as danças regionais, e terminava com fados de Coimbra. Além dos elementos do Gefac, para os espectáculos ia sempre o grupo de fados e os técnicos de luz. Destes, lembro-me do José Maria Cirne, do Manuel Soares Pereira e do Asdrúbal Frias. Normalmente estes técnicos eram do TEUC.

Na montagem todos ajudavam (claro, uns mais que outros...), bem como no carregar a camioneta.

As viagens eram sempre muito alegres e divertidas, cheias de cantoria, anedotas, foto-

grafias. Na viagem ao Algarve o Rui de Sousa foi toda, mesmo toda a viagem a contar anedotas. Foi impressionante a resistência daquele rapaz. Nunca parou de falar.

As fotografias dessa viagem foram – os homens sem bigode; os homens com bigode; as raparigas; tudo servia para fazer comédia. Éramos novos e divertidos! Nessa mesma viagem o Rui Pato teve uma trabalheira a ensinar a Samaritana ao Fernando Luis Marinho para ele cantar no espectáculo do Hotel Balaia e Vasco da Gama..

Passou muita gente pelo Gefac. No início do ano lectivo havia muitas inscrições mas depois os que eram apurados eram poucos pois havia muita falta de jeitinho,

principalmente no sector masculino. O mês de Outubro era repleto de “chão bico, bico chão”, base dos passos de dança.

Lembro-me de um Salema que se inscreveu e que teve que ser expulso pois a dança não era o mais importante para ele. Uma Dolores, muito loura e de cabelo muitíssimo comprido que era muito dinâmica e que dizia regularmente “ Todo o mundo atráis”(com o seu sotaque de português do Brasil). O Joãozito que nos intervalos dinamizava a dança do tango com a Elizabete e todos os outros.

Os ensaios de tocata e do coral, eram por vezes penosos, pois o Normando era muito exigente e não admitia brincadeiras. Claro que quanto mais ele se arreliava mais o pessoal ria. Às vezes acabava tudo zangado com as teimosias de alguns. A música que causava mais problemas era “O corridinho, esta moda singular...” principalmente na parte “...e nós os homens barbados, valha a verdade...” “...plim...plim...”

Um dia, no fim de um espectáculo, fomos todos para a Associação e fui muito gozada porque todos contaram histórias de bebedeiras e eu nunca tinha apanhado nenhuma. O Manuel Leão ria a bandeiras despregadas e não paravam de dizer “nunca apanhou nenhuma bebedeira! Nunca apanhou nenhuma bebedeira!” e ria, ria, ria...Foi assim até nos ir levar a casa no seu wolkswagen 1300, atravessando passeios com o carro...

Demos um espectáculo na Mealhada e fomos recebidos pelo verdadeiro Messias de barbas enormes. A Montemor-o-Velho fomos por influência da Elizabete. Eram poucos os espectáculos que tínhamos e os que arranjávamos eram porque alguém do grupo dava um “toque”. Também fomos a Abrantes, em tempo de Carnaval e depois do espectáculo fomos para a Assembleia local para um baile. A Fernanda, o Joãozito, o João Correia e eu ficámos lá e apanhámos o comboio no dia seguinte para Castelo Branco, Vila Nova de Foz Côa e Portalegre, respectivamente.

O espectáculo de Abrantes tinha uma personagem que era o Sr. Folclore que não entrou no momento que devia no palco ( não sei porquê) e então era ver o Carlos Faria muito aflito no palco, gritando: Ó Normando ! Onde é que está o senhor Folclore?? Ó Senhor Folclore! Como se isto não bastasse, o trio Zaida, Elizabete e Teresa Boliqueime foram cantar o “Viene su la Barqueta” e só riram todo o tempo. A Zaida chorava de tanto rir. O que é certo é que não conseguiram cantar nada. Mas riram bem! Os comentários dos espectadores no final: “ Só foi pena aquelas meninas... cantavam tão bem ...mas só riam...só riam...”. Este espectáculo tinha uma cena um tanto disparatada de “vasos co-

municantes” um dos que entrava nisso era o Carlos (Carlos Manuel Bastos Pacheco de Barcelos, de medicina) eram três, já nem sei quem eram os outros – um bebia, outro arrotava, outro...

Creio que para podermos ter acesso ao material para o espectáculo de Castelo Branco, tivemos que ir à Polícia pedir para entrar na Associação Académica (estava selada, por causa da crise), alguns estavam em liberdade condicional…

Foi um espectáculo um tanto conturbado. Para além das danças, tinha dois quadros encenados que tinham todos os ingredientes para pôr o Comissário da polícia nervoso.

Uma encenação tinha a ver com António Aleixo, onde cinco estavam no palco dizendo quadras escolhidas de “Este Livro que vos Deixo”. Duas raparigas vestidas de vermelho (Romy e eu) e três rapazes vestidos de preto (Rui Jorge, Fernando Monteiro e Tadeu) as quadras eram de grande crítica social, o público compreendia e reagia positivamente.

Outra adaptação teatral de “O Exame do meu Menino”, onde um cábula dizia as suas piadas e onde foi introduzida uma avó surda (eu ) que à custa da surdez, ia dizendo coisas que julgava ouvir e que tinham segundo sentido (piada política)... nos camarins o espectáculo recebeu ordens de não continuar. Razões?? O adiantado da hora...

Fomos ao palco com ar muito contristado e de capas caídas em sinal de luto dissemos que tínhamos sido impedidos de continuar o espectáculo pelo senhor comissário da polícia, por ser muito tarde. Reacção da plateia “ A Laura Alves costuma estar cá até mais tarde e nunca foi impedida de continuar o espectáculo!!!! ”

Tínhamos a camioneta cheia de comunicados pois tinha havido problemas com um espectáculo da OTEC (até as pedras da calçada tinham sido arrancadas na Praça da República, para apedrejar gente que foi ao teatro). A Academia estava de luto. O Rocha pôs-se à porta do cinema a distribuir comunicados e de imediato foi levado para a polícia para identificação. A Mena Delgado ( em liberdade condicional) escondeu os comunicados debaixo da capa e perante alguém que lhe sussurra: “tem aí um comunicado?” Ela, de imediato lho dá. Ele de imediato lhe diz para o acompanhar. Era um PIDE.

A situação agravou-se o Comissário exigiu a identificação de todos, a Direcção entrou em negociações e enquanto isso aconteceu, fomos impedidos de ter acesso à camioneta.

A Helena David conseguiu forçar um vidro e entrar na camioneta e retirar os comunica-dos. Parte deles foram levados no carro da irmã da Fernanda e a maior parte foi por nós distribuída em montinhos, por Castelo Branco.

Depois dos nervosismos e conversa do comissário que repetia para o Rui Jorge, então presidente da Direcção “o senhor Dr. desculpe... eu próprio estou a ser mandado! O senhor Dr. desculpe, eu próprio sou mandado pelo senhor governador civil”. Fez questão que fossemos para a sala onde estava servida a ceia. A fome já era muita. O Rui na sala, perante a mesa e com o seu ar disse: “Malta, acho que o que aqui se passou é inadmissível e como sinal de protesto peço que ninguém toque em comida nenhuma e vamos embora”. Dito isto, desmaiou.

O comissário da polícia: “ó senhor Dr. não faça isso!! E repetia, repetia. Houve quem

conseguisse à socapa roubar uns pãezinhos. A esvoaçar em Castelo Branco ficaram comunicados à solta e nós ao sair da cidade tivemos um furo.

Funcionou como fase de viragem e divulgação para o Gefac a deslocação ao Algarve com passagem pela televisão, canal 13, e Alcobaça.

Já referi alguns breves apontamentos da viagem, muito longa, com algumas contrariedades pois o Fernando Monteiro teimou que não se parava pelo caminho, a não ser para almoçar, e foi um tanto exagerado no cumprimento desse compromisso.

Também o Fernando esteve na base de uma decisão mais dura relativa ao Rui Curto tocar ou não no espectáculo por ter faltado a ensaios. Eu pessoalmente considerava que se deveria ter deixado o Rui participar na tocata e o Fernando estava irredutível! Já não me lembro se tocou ou não.

Esta viagem foi promovida pela Teresa Morgadinho que era amiga do dono do Hotel Vasco da Gama. Ao chegarmos ao Hotel Balaia tivemos que nos deslocar ainda alguns quilómetros até Alcantarilha, um colégio onde ficámos em camaratas.

Durante o jantar, no Hotel Balaia, com a sala cheia de turistas, ambiente requintado, coktail inicial, perante o qual o Monteverde perguntava “isto é para comer ou para beber?” Entre muitas tropelias, risos, o Monteverde até a célebre missa negra rezou, perante a estupefacção de todos. Consequência de tais actos, a partir daí, fomos recambiados para uma sala de jantar no sótão do Hotel.

Durante a noite, camarata de rapazes, camarata de raparigas, a Regina (cantava tão bem! Lembram-se?) lembrou-se, talvez por estarmos num colégio de freiras, de simular um hábito de freira com a ajuda de um lençol e a capa. Bem disfarçada e com um ar muito sério irrompe pela camarata dos rapazes a repreendê-los por causa do barulho e eles apanharam um grande susto, pois alguns estariam despidos e acreditaram tratar-se de uma freira. Penso que houve quem se enfiasse debaixo da cama.

Ainda nesta viagem houve alguns incidentes relacionados com as relações da Academia com o Ministro da Educação que então já era o Veiga Simão, pois queriam que fossemos à discoteca actuar para o Ministro e nós recusámo-nos, o que criou algum mau estar ao gerente do Hotel.

Demos espectáculo no Hotel Balaia e no Hotel Vasco da Gama essencialmente para estrangeiros. Um dos espectáculos foi numa piscina, num estrado que baloiçava muito e era pequeno. Fomos muito aplaudidos e a Elvira a rodopiar Nazaré sem cullotes. Até chorou por causa disso! Outros tempos!

Na sequência do Zip Zip outros programas do género foram acontecendo na televisão. Um deles foi o Canal 13 que tinha como apresentadora Ana Maria Lucas que tinha sido Miss Portugal e era modelo. Era um programa gravado no Parque Mayer, creio que no ABC. Fomos, no regresso do Algarve ao Canal 13. Preparámos primeiro a entrevista com a Ana Maria Lucas (de rolos na cabeça), o Luís Pais Borges e eu.

No espectáculo actuámos a seguir à Anita Guerreiro que cantou “Cheira bem, cheira a Lisboa”. O Luís também foi maquilhado e até andou todo o dia com aquele empoamento na cara. Á noite fomos a um bar onde estava a cantar a Luisa Bastos e entrámos também em cena abrilhantando a noite.

Dias mais tarde fomos a casa do Manuel Leão visualisar o programa, numa sala que tinha um grande aquário e alcatifa. Foi divertido ver a entrevista e sobretudo ver a câmara passar da cara do Luís para o lado e ficar o écran vazio, a câmara teve que descer até encontrar o meu rosto. (tecnicamente as coisas ainda eram fracas…)

No fim da digressão ao Algarve, com passagem pela televisão, lembro-me que vários de nós se despediam do Gefac. Tenho muito presentes as palavras do Rui Pato, dizendo que muitos de nós pelas características dos projectos de vida que íamos ter, seria fácil reviver ou pôr em prática, actividades afins ao Gefac, coisa que não iria acontecer com ele.

Lembro-me duma ida a Paião em que nos fartámos de roubar laranjas e depois acabou por vir a dona do laranjal, dar autorização para comermos as laranjas.

Sob proposta de José Orlando e aprovada em Assembleia Geral, iniciaram-se investigações etnográficas, para sustentarem a autenticidade de representações, marcações de danças, genuinidade das actividades.

Foi assim que se realizou a primeira deslocação a Lisboa para falar com Jorge Dias e Michel Giacometti, ao museu do Ultramar (??), na Rua Jau. Pretendeu-se com este encontro, recolher algumas regras básicas de investigação etnográfica. A deslocação em BMW do Aires Aguilar, recém chegado do cumprimento do serviço militar, entu-

siasta de fotografia, sobretudo a preto e branco e cuja entrada no Gefac foi também útil nesta área porque “os tesos” nem máquina fotográfica tinham. Foi uma viagem muito proveitosa. Creio que foram a Fernanda, Aires Aguilar (suspeito que a fazer-se ao piso à Fernanda), Fernando Monteiro, eu e José Orlando (??). Foram-nos transmitidos saberes, a que particularmente a Fernanda e eu fomos sensíveis, pela formação na área da investigação linguística. O relato das experiências de investigação em África e no Brasil, foram de grande utilidade nas investigações futuras, nomeadamente na zona demarcada do Douro. Aprendemos aí que, na época, a tasca era o melhor lugar para estabelecer as empatias necessárias à investigação.

Apetrechados desses conhecimentos, regressámos, não sem apanhar na estrada um acidente brutal, com quatro mortos espalhados na estrada, o que determinou uma paragem obrigatória para acalmar e ainda uma condução até Coimbra, muito mais tranquila, sem velocidades excessivas.

Uma vez decididas as zonas a investigar, de acordo com o interesse e as possibilidades de apoio para não haver problemas económicos, resolvemos ir para a zona demarcada do Douro, uma vez que o sistema de rogas do Douro, estava a perder-se. Estabelecidos os contactos e propostas à Vice- Reitora, então Dra. Maria Helena da Rocha Pereira, conseguimos um subsídio para efectuar essa pesquisa. Como o mesmo era insuficiente e íamos para a zona d vinho do Porto, conseguimos ainda a colaboração do Instituto do Vinho do Porto, que nos cedeu um carro sem motorista, “um Carocha” (guiado pelo Orlando ou pelo Fernando Monteiro) e nos pagou o alojamento no Pinhão, em residencial, junto à estação, por onde passavam aquelas máquinas negras a carvão com rolos de fumo e apitos que conhecíamos da obra de Eça de Queirós.

Valia-nos a prova constante de Vinho do Porto nas quintas!! Nunca comemos tanto morango, invariavelmente a sobremesa ao jantar. Havia tantos morangos como baratas a passear, impunemente, durante a noite nos quartos e corredores. Para ir à casa de banho, lembro-me que era “...pé aqui...pé acolá... pé aqui... pé acolá...”

As boas vindas tivemo-las na Casa do Douro onde fomos principescamente recebidos, com boa comida e melhor bebida. Tivemos uma verdadeira lição de vinho do Porto, vinhas desvastadas pela filoxera, vinha em socalco, porquê da redra, envelhecimento de vinho, vintage, copo em tulipa... A teoria estava consolidada, havia agora que calcorrear trancos e barrancos, quintas e quintinhas, tascas e tasquinhas, fotografar alfaias agríco- las, conversar com o povo genuíno. Foi isso que fizemos e tão bem o fizemos que a Fernanda que não gostava de vinho do Porto veio de lá a gostar. Às nove horas (manhã) começava o dia em digressão pelas quintas e a explicação era acompanhada por um copo e amêndoas à boleia. Não podemos esquecer a forma simpática como fomos recebidos na quinta de S. Luis, sobranceira à Régua, a quinta da Vesúvia ( que comercializa o vinho Ferreirinha), a quinta do Noval, verdadeiro postal do Douro e que produz vinho essencialmente para exportação, a quinta das caves Sandeman, cuja adega era a mais moderna (com dezassete cubas de fermentação cuja trasfega do vinho era controlada por um verdadeiro “cocpit” de um avião, economizando assim mão de obra) e propriedade de um inglês de trinta e cinco anos “solteirinho da silva”... Nota dissonante em toda esta digressão, a quinta da Real Companhia Velha que sustentava num dos seus morros uma verdadeira pousada envidraçada que recebia regularmente o então Presidente da República e seus “acólitos” . Foi a nossa persistência provocatória e curiosa que nos abriu uma “nesga” da porta e ficámos a saber que eles foram os tais inovadores do vintage e que cada ano que nascia um filho enchiam um tonel com o seu nome.

A propósito de tonel ficámos formados em aduelas, envelhecimento e tratamento dos cascos, madeira aconselhada, tanoeiros, ferramentas de tanoaria, poceiros... um nunca acabar de vivências formadoras e consciencializadoras de como o mundo rural era pequenino e sem consciência do tamanho do mundo. Só assim se compreendia que numa aldeia chamada Adorigo, um monte sobre o Pinhão, na tasca ao saber-se que éramos de Coimbra, uma inocente mulher tenha dito: “ Conhecem lá a Gracinda?”

Eu, muito séria disse que sim, mas que há já algum tempo não a via. Eram tascas onde o vinho do Porto era vinho corrente (não sei se a martelo).

A experiência foi tão positiva que fomos reincidentes e lá partimos para o Alentejo. Mais propriamente para o distrito de Portalegre. Aí tivemos a colaboração dos Serviços Florestais e era num Geep desses serviços e com um condutor que nos deslocávamos às várias localidades. Percorremos Castelo de Vide, usos e costumes, Marvão, aí encontrámos um verdadeiro etnólogo funcionário da Câmara, que cultivava o saber de todas as tradições locais, quer ao nível da música, dança, lendas, usos e costumes, utensílios... lembro-me a graça com que contava a lenda da origem do nome do rio Sever, zona onde actualmente o célebre Melancia tem um complexo turístico de golfe... Sever tem origem no séquito que acompanhava a futura mulher de D. Pedro I, Inês era uma das acompanhantes da princesa... ao passarem por ali, cansadas da viagem ficaram contentes porque havia ali um rio para “se ver” (espelho)... Costumes de ceifas de ganhões, lendas referentes ao Convento fora de muralhas em Marvão... aquele homem era um manancial de informação...

Deslocámo-nos a Niza e dada a riqueza e variedade de aspectos a explorar assim como alojamento gratuito, resolvemos ficar em Niza, instalados em casa do Dr. Curado Banha, professor de inglês, cego, pai de uma nossa amiga da Fernanda e minha. Casa antiga com quintal, onde inicialmente acamparam os rapazes (Fernando, Zé Tó, Lima, João Correia, Orlando (?? ) as raparigas (Fernanda, Mena Delgado, eu) na casa. Aqui havia todo um rol de músicas antigas que acompanhadas ao piano, pela nossa amiga ou pelo Fernando, tornavam os serões bem divertidos e animados. Para além disso, a cultura das pessoas que nos acolheram e o seu património deram “pano para mangas” para a nossa investigação. Duvido que em “alinhavados de Niza” pudéssemos arranjar mais informação e modelos do que o que saiu daqueles baús duma família tradicional.

Visitámos oleiros, pusemos pedrinhas em cantarinhas de Niza, aprendemos cantares e nessas digressões fomos convidados para um casamento à moda tradicional de Niza, isto é, oito dias de casamento em casa do noivo e outros oito em casa da noiva.

À noite, os descantes, cantares à porta dos noivos para não os deixar dormir e virem receber os cantadores e cantadeiras. Enfim, uma paródia!

No meio de tanta etnografia, não podia faltar as crendices nos fantasmas e havia uma casa assombrada em Niza, onde aparecia o Pancas, fantasma… Estas narrativas povoaram muitos dos serões e levou-nos à descoberta de que o Fernando se impressionava com os fantasmas e tinha medo de aranhas! Então é que foi!

Partidas atrás de partidas…

Maria Celeste Garção Nunes

2003

São muitas as memórias, são muitas as saudades, dos que nunca mais vi e daqueles que tão cedo nos deixaram, aqui com particular homenagem ao RUI JORGE e à ZAIDA…

Abril de 2009

Por LENA REMELHE

Um dia a Celeste telefonou-me!

A conversa simples e natural de quem nunca se viu afastada geográfica e emocionalmente de Coimbra, pelo menos por muito tempo, provocou em mim, ao invés, uma montanha de múltiplas emoções e um regresso quase imediato e lúcido ao início dos anos setenta, período responsável pela minha formação, essencialmente, como pessoa.

Viver de novo o GEFAC, como a Celeste pediu, quando o GEFAC representou o suporte, a âncora da minha vivência estudantil e também o bálsamo para os conflitos existenciais próprios de quem foi sujeito e objecto da revolução das mentalidades desencadeada pela dinâmica que caracterizou os anos sessenta, é inevitável o ressurgimento de uma terrível onda de nostalgia e de um desejo quase incontrolável de me manter aí, longe no tempo, experimentando as mesmas sensações, até as físicas, o esgotamento de quem chega aos Paços da Academia ao romper do dia depois de um espectáculo nessas terras do interior, por onde Cristo se esqueceu de passar, mas com o contentamento de ter contribuído para divertir e animar as almas daquelas gentes com a irreverência incontida e a sã irresponsabilidade dos estudantes de Coimbra. .

Viver o GEF AC, de novo, por quem há tanto tempo se refugiou no quotidiano da grande Cidade, recusando, por necessária estratégia, manter activo e actual parte do universo espiritual construído nessa época, é paradoxalmente perturbador pelas reacções que se manifestam.

Aceitei, mesmo assim, escrever um breve apontamento e disso não prescindo.

Peço a quem me lê que navegue comigo no tempo à procura de um recôndito País, fechado em si mesmo, subjugado por um regime autoritário e repressivo, culturalmente esmagado e vilipendiado, por forma a garantir a necessária sustentação do Ditador.

É neste País de gente simples e humilde mas que já não suportava mais o isolamento e a teimosia anacrónica do conservadorismo ditatorial, que surge o GEFAC que, como outros organismos autónomos, o TEUC, o CIT AC ou a TUNA, quebrava as correntes da censura e levava a voz da liberdade e da democracia, em linguagem codificada e metafórica, aos ouvidos ansiosos e sôfregos

de ânimo para, silenciosamente ou não, prosseguirem a sua longa luta contra o fascismo.

Chegaram os estudantes de Coimbra !!

A alegria, o júbilo era enorme, sobretudo nessas terras pequenas onde não havia um Teatro, nenhum espaço próprio para manifestações de carácter artístico e cultural. Mas logo se improvisava um palco, por vezes nas Juntas de Freguesia e eram os próprios assistentes que levavam de suas casas as cadeiras que faltavam e nós estudantes, recebidos com banda de música e lançamento de foguetes, não sabíamos que, privilegiadamente, vivíamos momentos ímpares e irrepetíveis.

E é numas dessas terras, aparentemente, pacatas , desse País ligeiramente configurado nas linhas anteriores, e num desses palcos improvisados com um pano de fundo a fazer de parede, que relato um episódio que nunca esqueço.

Actuava o Minho. O palco enchia-se de beleza pelo colorido dos trajes típicos daquela região, vestidos por raparigas e rapazes cheios de vivacidade e muito bem ensaiados pelo Pintão ( olha a linha ! olha a linha ! ) e inundava-se com o som forte dos tambores, dos cavaquinhos e do acordeão do Normando.

Vejo-me com o meu fato verde, eu vestia sempre o fato verde, que acarinhava, tratava e guardava como se fosse uma pedra preciosa. Através dele, projectava para a superfície das emoções a minha natural inclinação para a dança. E eu rodopiava e todos rodopiavam naquele palco que ameaçava desabar com o bater das chinelas para marcar os compassos.

A dada altura, a dança que se seguia era executada, apenas, por quatro ou seis pares, não me recordo exactamente, e os elementos que não integravam essa coreografia descansavam ao fundo do palco, aguardando a sua vez nas subsequentes representações.

Aos últimos acordes dessa execução limitada aos tais quatro ou seis pares, já os restantes se preparavam para retomar a sua posição no palco. A roda estava, supostamente, completa. Os dançarinos em pose, com os braços elevados e ligeiramente curvados, aguardavam o som da tocata.

De repente, saltou a voz furiosa do Rui Pinto Ferreira «onde é que aquela gaja se meteu ?! onde se meteu aquela gaja ?! ».

É verdade! O Rui estava sozinho no palco, sem par. O seu par tinha desaparecido misteriosamente, como que por um passe de mágica. Ninguém percebia como nem porquê e gerou-se a confusão. E a Isabel não aparecia! Meu Deus, que fazer? A solução foi o Rui bater em retirada, mais uma vez, para o fundo do palco até aquele pano escuro que teimava em parecer parede. E por detrás do palco, no chão, de onde ecoava uma trovoada de gargalhadas, estava a Isabel Lemos! Desajeitadamente, entendeu encontrar suporte e descanso na tal cortina escura que teimava em parecer parede, e caiu.


Depois, a Isabel levantou-se e depois, ainda, todos levantamos arraiais para partir e...voltar a outras

paragens.


E um dia o GEFAC foi em digressão para muito longe, imaginem, para o sul do País! Muitos de nós,

ainda, não conheciam o Algarve! Era o meu caso. Nesse tempo os passeios e as viagens limitavam-se ao regresso a casa depois dos exames e só as famílias mais abastadas proporcionavam férias aos filhos.

É indescritível o que representou para todos nós essa viagem de três ou quatro dias, transbordantes de episódios de uma comicidade extrema que serão, certamente, engenhosamente relatados pelos seus principais protagonistas. Deixo, então, para eles esses dias gloriosos.

Detenho-me, no entanto, na viagem de regresso a Coimbra, com paragem em Alcobaça para o derradeiro espectáculo A exaustão era total. Ninguém tinha dormido.

A sofreguidão pelo aproveitamento de todos os minutos de todos aqueles dias ímpares, afastava-nos do recolhimento solitário e atirava-nos para situações geradas pela ingenuidade e imaginação que o ambiente fertilizava.

Em Alcobaça, todos, já, vencidos pelo cansaço, tínhamos que, apesar disso, cumprir a nossa missão - cantar, dançar e representar.

A assistência era compacta. Era dia de romaria em Alcobaça. E nós, arrastados até aquele palco, ao ar livre, como quem vem de uma longa e tormentosa caminhada, tentávamos, impacientemente, distinguir o som da nossa tocata do inferno dos altifalantes que, por toda a parte, chamavam a atenção para os seus recintos.

Só por instinto foi possível a exibição.

E eu, aflita, gritava ao Carlos, ao Carlos Bastos, « Carlos tás mal!! Tás a rodar ao contrário!! ». E o Carlos, em tom prazenteiro e despreocupado, respondia-me «Deixa lá, assim é que eu dou nas vistas!!» . Nunca mais acertou o passo nem rodou como os outros.

E com este « Deixa lá , assim é que eu dou nas vistas », em homenagem ao meu par no GEFAC, que nunca mais vi mas espero se encontre bem, termino o meu modesto testemunho.

Um forte abraço.

Lena Remelhe

Por CARLOS FARIA, 2003

Em 2003 Carlos Faria dizia assim…

Caros Amigos, Celeste (dos "velhos") e André (dos "novos"),

C/ 1 abraço para ambos e uma beijoca especial para a Celeste, aqui vão algumas

lembranças do nosso Gefac.

Embora todos os relatos que farei sejam verdadeiros, peço-vos a maior tolerância para a indisciplina da apresentação e para a falta de distanciamento das estórias: a primeira, deve-se ao facto de vos escrever ao correr da pena (do computador...); quanto à segunda, o ter vivido no Gefac, para o Gefac, com o Gefac durante tantos anos, não me dará, estou certo, a frieza do historiador...

Há também que contar com a idade cá do rapaz que me provocará certamente alguns lapsos de memória Conto convosco para salvar o que possa ser salvo destas linhas...

Aqui vão algumas estórias ...

1. Cheguei a Coimbra em 1965 e "aterrei" no Orfeão, onde era um "baixo" da mais baixa categoria possível. Lá andei a fazer número ( e barulho, porque canto "mal e porcamente"...), até que, no início do ano lectivo seguinte (1966/67), alguns amigos do meu tempo de liceu de Viana (a Rosa Guedes, por exemplo) e outros (a Lena Remelhe, minha colega em Direito, por exemplo), na sua maior parte "antigos" do GUDR (Grupo Universitário de Danças Regionais), um "ramo" da Tuna (organismo dominado à época pela extrema-direita...), me convidaram a juntar-me ao recém-constituido (a constituir?) GEFAC. "Alinhei" e, desde então, não mais me curei da maleita: tornei-me num dos primeiros sócios, fui da Direcção (na Crise de 1969 lá estava eu, a levar porrada da polícia, a ser detido por ser "o Beato" da R. Manuel Bastos Pina...), ensinei a dançar o meu Minho a centenas de novos gefaquistas (alguns, confesso, nunca aprenderam...), namorisquei (namorei, amei...) todas as raparigas que me deram trôco (aqui entre nós, poucas, a meu ver...), fui pr'á tropa em 1970, mas continuei "na casa"( Direcção, espectáculos, ensaios...) e, finalmente, casei (faz este ano 31 anos) com a Ana Maria, uma gefaquista entrada em 1969 e que eu, parvo, só "descobri" um ano mais tarde, numa célebre deslocação ao Algarve (de que falarei mais adiante...) .

2. Estamos em 1966. O GEFAC não "tem onde cair morto": trajes (Minho, Nazaré e Beira) e instrumentos musicais só existiam os que, certamente como preparação para os Jogos Olímpicos, tinham "saltado" de dentro dos armários da Tuna para as nossas nóveis instalações na Associação; o dinheiro vem apenas das quotas dos Sócios; não há quaisquer subsídios (nem da Reitoria, nem da Gulbenkian, à época a “CEE” dos Organismos Autónomos…) porque o Organismo tem fama (e proveito) de ser

constituído por uma corja de “reviralhistas”.

Há que puxar pela imaginação, mas, ao contrário do que actualmente é moda, não passa pela cabeça de ninguém fazer pagar a crise aos Sócios, aumentando as quotas. (A reacção destes seria, aliás: não pagamos! não pagamos! não pagamos!...). Aí, viramo-nos para as "potencialidades" do mercado: as deslocações (todas para sítios exóticos, como a aldeia do nosso saudoso Rui Jorge, o Meco, perto da Figueira, eram sempre pagas... com grandes bebedeiras e os "comes" a acompanhar; os altifalantes e os microfones que tínhamos, eram todos "adquiridos" aquando dessas nossas grandes viagens junto das "sedes locais" de um partido, perdão, de uma entidade que ainda hoje existe, a Igreja Católica...; os mais abonados cuja famíla tinha trajes regionais eram cordialmente convidados a surripiarem os ditos e a juntá-los ao enxoval do Gefac.

3. Por falar no Meco... Estamos em 1966, e o Gefac vai dar um espectáculo ao

Meco. Somos recebidos pelas autoridades locais e pela Banda de Música. O cortejo

segue até ao centro da freguesia, rodeado por toda a população que nos franqueia

as portas de casa. Com. mais alguns gandulos (e, provavelmente, gandulas), entro

numa casa. O fogão de lenha está aceso. Num alguidar (para os citadinos, "alguidar"=bacia em barro vidrado), jazem uma febras, semi-imersas em vinha-d'alhos. O ataque é imediato. Sinto-me entalado só porque não me lembro de onde saiu o tintol para empurrar as melhores febras da minha vida!...

4. 1966. Espectáculo em Valadares, terra das Lenas (Remelhe e Milena). Além do povão, temos na assistência gente fina, incluindo o Governador Civil. Antes do espectáculo, estupidamente, dão-nos um lauto jantar.

Como sempre, começamos com o Minho (seguiam-se, se bem me lembro, a Beira, a

Nazaré, as "Variedades" (notícias da "televisão", música pelo Duo Nolu (Normando+ Luis Pais Borges), uma "peça" de teatro humorística (ex, a "Inês de Castro" - onde pára esse texto maravilhoso?..) e, no fim, os fados. Acabado o Minho, liberto, molho (ainda mais) as goelas. O resultado era de esperar: um pifo monstro! Dá-me p'ró disparate: quando o Duo Nolu acaba mais uma canção, entro no palco, cambaleante, e exijo que toquem para mim o "Solamente una vez". O Duo, aflito, começa a tocar: Os

espectadores convencem-se que o bêbedo faz parte do cenário e riem (e, pasme-se, aplaudem!...). Com a língua entaremelada, sem saber toda a letra da canção, oscilando diante do micro, acabo(?) a canção e desapareço sob os aplausos. Nessa noite, na ceia, evitei encontrar-me com o Normando e o Luis...

5. 1966. Tomada da Bastilha. Espectáculo no Teatro Avenida, em Coimbra. Chega o momento da peça de teatro (quem tem o texto desta peça?). Estou no palco sozinho e devo chamar pelo "povo" para fazer entrar o dito (o Rui Jorge que, entretanto, deve despir rapidamente o "fato da Nazaré" e albardar-se com o do "Povo")). Chamo: "ó, Povo!". Nada... "Ó, Povo!". Nada... O tempo passa, os espectadores mexem-se nas cadeiras, enervo-me... Ainda tento, uma vez mais: "Ó,Povo!". Face ao silêncio que continua (o Rui Jorge atrasou-se...), desesperado, grito: "Ó, Rui Jorge, chama aí o povo!"... A gargalhada é geral...

Meus Amigos, talvez haja outras coisas para contar, mas não me ocorrem.

(Lembrei-me agora das n deslocações, obviamente infrutíferas, da nossa Direcção do Gefac a Lisboa, para obter o "reconhecimento oficial" do Ministro da Educação - o democrata Hermano Saraiva , condição sine qua non para poder pedir subsídios à Gulbenkian e Reitoria; lembrei-me agora que em 1969 fomos único Organismo que

Dentre os seus mais de 100 inscritos não teve um só que furasse a Greve (o único que tentou, o Mesquita, que tocava acordeão, foi expulso, numa A. Geral ad hoc) .

Se achardes que algo se pode aproveitar, a Celeste, com o seu Português apurado,

de certeza que salvará o que fôr útil...

Um Grande e Amigo abraço gefaquista do

Carlos Faria

Bruxelas 2003

Por PINTÃO

Eu pertenci ao GUDR (Grupo Universitário de Danças Regionais), quando foi presidente o Álvaro Laborinho.

Em virtude de crise académica, aquele organismo extinguiu-se em 1964.

Em 1965 fui contactado pelo José Manuel Matos Pereira , então pertencendo à direcção da Tuna Académica, convidando-me para organizar uma secção de danças regionais naquele organismo académico

Devido à minha paixão pelo folclore nacional acedi e comecei a fazer contactos. Só consegui, contudo, organizar o grupo do Minho, danças para as quais me sentia capacitado de ensaiar, visto que eram aquelas que dançava no GUDR. Não consegui convencer, nem o Leão, nem a Zaida, para ensaiarem a Nazaré e a Beira.

A Direcção da Tuna concordou que se devia começar a secção de danças só com o Minho e depois, viriam as outras regiões.

E assim começou a secção de danças regionais da Tuna académica. Corria o ano de 1966.

No velho café Tropical (que muita saudade me traz), “à hora da bica”, eu e o Matos Pereira decidimos criar um organismo académico dedicado ao estudo da Etnografia e Folclore do nosso país. E foi nesse encontro que se começou por dar o nome ao futuro organismo – GEFAC.

Estávamos em 1966

Eu fiquei responsável pela estruturação artística e o Matos Pereira pela organização administrativa, incluindo a elaboração dos estatutos do futuro organismo. Iniciámos de imediato os nossos trabalhos e contactei o Manuel Leão e a Zaida, também antigos elementos do GUDR, mas só aquela última manifestou disponibilidade para se responsabilizar para as danças das regiões da Nazaré e Beira. A região do Minho ficou a meu cargo. O Manuel Leão ingressou mais tarde, tornando-se num elemento de grande valia.

Assim arrancou o GEFAC com o objectivo de estudar a Etnografia e o Folclore daquelas três regiões. (sendo de salientar que praticamente a totalidade dos elementos que pertenciam à Tuna transitaram para o novo organismo.

1ª DIRECÇÃO DO GEFAC

José António da Silva Afonso

José Manuel Pintão Moreno Antunes

Manuel Artur Gaspar Barbosa Leão

Maria de Fátima da Silva Monteiro Saraiva

Maria Helena Lima Leite

Maria Madalena da Rocha Gouveia

Rui Manuel Teixeira Jorge

MESA DA ASSEMBLEIA GERAL

Eduarda Abílio Lomba Correia Guedes

José Manuel Miranda de Oliveira

Maria Helena Fernandes da Silva Remelhe

CONSELHO FISCAL

José Manuel Matos Pereira

Maria Filomena Delgado

Zaida Moreira dos Santos Chieira

CONSELHO ARTÍSTICO

José Manuel Pintão Moreno Antunes

José Manuel Miranda de Oliveira

Zaida Moreira dos Santos Chieira


ACONTECIMENTOS

Viagem a Castelo Branco após Abril 1969 (em plena crise)

No fim do espectáculo houve distribuição de panfletos relacionados com a crise Académica. A PIDE invadiu os bastidores e o nosso autocarro procurando mais material…Era então presidente o Rui Jorge.

Num dos Saraus de Gala da Queima das Fitas, onde o nosso Grupo sempre estava presente, a exibição das danças do Minho foi efusivamente aplaudida pela assistência, sobretudo masculina, instalada nas primeiras filas, sentados no chão e no próprio palco.

Ficámos todos orgulhosos, mas qual não foi a desilusão quando fomos informados que o reforço dos aplausos das referidas filas eram dirigidas a uma das nossas dançadeirasque por esquecimento não vestira os “coullotes” (julgo ser assim que se chama).

É que naquela altura ver as cuequinhas a uma rapariga era FOGO!!!

Numa deslocação ao Algarve, para realizar alguns espectáculos, fomos instalados no Hotel Balaia.

No primeiro jantar e em virtude de sermos “doutores” de Coimbra , receberam-nos com toda a pompa e circunstância e o nosso primeiro jantar foi no Salão Principal do Hotel. Mas, o alrido, a irreverência e alguma pouca vergonha foi tanta, que nas refeições seguintes fomos instalados na sala dos pequenos almoços.

O que mais me ficou na memória foi a história do Coktail de marisco, de entrada, onde a figura destabilizadora foi o Monteverde que perguntava em voz alta se aquilo era para comer ou para beber.

Alguém mais se poderá lembrar de outros pormenores daquele jantar.

Será fácil imaginar a cara dos turistas presentes, a maioria “Velhotes” e estrangeiros.

Recordo também com saudade os ensaios do começo de ano, onde para ensinar os primeiros passos àqueles com menos jeito para a dança, servíamo-nos daquele “bico, bico-chão!!!”

É possível que nos nossos espectáculos tenham ocorridomuitos acontecimentos hilariantes, sobretudo na representação do “exame do meu menino” onde eu e o Pais Borges fazíamos de meninos e a Celeste, uma avó muito surda (conveniente para a piada política)

José Manuel Pintão Moreno Antunes

Médico no Hospital de Elvas

2003

Por RUI PATO

NO GEFAC OUVIU-SE O FADO!
Rui Pato (*)

Não tenho grande vivência com o GEFAC, tive apenas alguns períodos em que dei maior colaboração e em que convivi mais com as pessoas do GEFAC. Isto porque a minha habilidade era a de tocador de viola, e como tal, o meu organismo académico, de raiz, foi sempre a Tuna; mas, como todos os organismos académicos nos anos 60, por uma ou outra razão, necessitavam sempre de tocadores de viola eu, umas vezes colaborava com organismos teatrais (Citac) fazendo músicas de fundo para as suas peças, outras vezes colaborava com o Orfeon como elemento de um grupo de fados, e na Tuna, tanto era elemento da orquestra como do grupo de fados. Tive também uma fase em que fiz parte, ocasionalmente de um grupo que tocava fados de Coimbra no espectáculo do GUDR, antecessor do Gefac.
Quanto ao Gefac, eu fiz parte da equipa directiva da Tuna quando o organismo foi gerado, quando saiu do ventre da Tuna e, portanto sinto-me um pouco como progenitor (afastado) deste organismo autónomo da Academia. Só em 1971, já licenciado, eu sou chamado a ter uma colaboração activa no Gefac, colaboração essa que se prolongou de uma forma cíclica e irregular até 1984. Essa minha colaboração foi sempre na minha qualidade de cultor do fado e da canção coimbrã.
Como é sabido, após a crise académica de 1969, houve uma posição da Academia, tomada em Assembleia Magna, que deliberou pelo Luto Académico. Essa posição foi entendida como impedindo todas as manifestações da praxe, tal como a Queima das Fitas, Latadas, Serenatas, etc. Por este motivo as guitarras, as violas e as vozes calaram-se em Coimbra e só passados dois ou três anos, se iniciaram movimentos de reimplantação das tradições, incluindo o fado.
Mas, em 1971, o Gefac entendeu e bem, que deveria incluir a canção de Coimbra nos seus espectáculos, pois ela fazia parte da etnografia e do folclore urbano da nossa cidade. Os dirigentes da altura convidaram-me no sentido de construir uma “viagem” ao canto coimbrão através dos tempos, com texto explicativo e com exemplos do fado académico durante essas mesmas fases.
Fez-se um texto que retratava o fado dos anos 40 e cantava-se um exemplo; depois dava-se outro exemplo da década de 50, depois o aparecimento, durante as crises académicas e as eleições do Delgado, das Baladas do Zeca Afonso e, nos anos 60 o movimento das trovas com Adriano, Manuel Alegre e António Portugal. O espectáculo, incluído no guião habitual dos espectáculos do Gefac, resultou muito bem, apesar de alguns constrangimentos que eram a falta de cantores! Para isso eu fui transformado em professor de canto e ensinei dois fados ao Luís Marinho, que nunca tinha cantado e ao Luís Pais Borges que, ainda era menos versado nas artes canoras…
Com guitarrista andava connosco o Luís Cerqueira (“O Sócio”) e como viola, obviamente, estava eu. Conseguiu-se um resultado muito satisfatório, tendo assim nascido um grande cantor – o Luís Marinho! Ainda hoje é difícil encontrar quem tão bem cante a “Samaritana” e a “Canção com Lágrimas”!
Julgo que estreámos este modelo de espectáculo no verão algarvio em 1971. Fui todo o caminho a ensinar os cantores neófitos a respirarem, a dividirem o poema, etc., etc. Valeu a pena! Se o Pais Borges renegou, depois dessa experiência, a sua carreira fadística, o Luís Marinho apaixonou-se pela canção de Coimbra e ainda mostrou (e gravou) excelentes contributos para o canto da nossa cidade.
Este tipo de roteiro foi mais tarde, em 1992, aproveitado, completado com grande rigor e levado aos palcos do país e do estrangeiro por António Portugal e Pinho Brojo, nos espectáculos a que chamou “40 anos no Canto e na Guitarra de Coimbra” em que também tive o gosto de colaborar assim com o Luís Marinho. Foi, portanto, o Gefac um importante marco no ressurgimento da canção de Coimbra, numa época em que voltar a cantar era difícil e em que a inteligência da Direcção do Gefac, na altura, soube aproveitar e divulgar com qualidade.
Depois desses anos voltei a colaborar com o Gefac já após o 25 de Abril, em 1977, numa viagem à URSS em que levámos uma selecção de fados. Aí cantaram o Luís Pais Borges e o Borges Pinto (imaginem!). Foi a primeira vez, creio eu, que nos palcos de Moscovo se ouviram as vozes, as guitarras e a poesia de Coimbra. Fez-se o que foi possível com um grupo que compensava com a boa vontade aquilo que lhe faltava em experiência fadística, pois, de todos, só eu tinha experiência e, por isso, tive que ensinar instrumentistas e cantores! É que o reduzido orçamento não permitia que se fossem convidar “verdadeiros” cultores do fado, aumentando assim o número de elementos.
Tinha que se utilizar a “prata da casa”.
Finalmente, em 1984, voltei a estar com o Gefac, de novo numa digressão à União Soviética, numa embaixada cultural, com espectáculos em Moscovo, Leninegrado, Yaroslavi (cidade geminada com Coimbra), Rostow e Kiev. Aí, o elenco era de luxo!
As guitarras eram do Brojo, do António Portugal e do Lopes de Almeida; eu e o Levy Baptista nas violas e como cantores foi o Fernando Machado Soares, o José Mesquita, o António Bernardino (o Berna) e o Luís Marinho. Foi feita uma gravação para a televisão da Ucrânia, vários espectáculos de grande responsabilidade, um êxito enorme críticas sempre muito favoráveis. A presença da música de Coimbra, através do Fado dos estudantes, das suas guitarras, das baladas e das trovas, enriqueceu, no meu entender, o conteúdo dos espectáculos do Gefac e a sua mensagem. A canção de Coimbra tanto serviu para mostrar, nos seus aspectos históricos, o percurso sociocultural da Academia, como na demonstração dos seus temas, as suas, as suas raízes populares e a sua vertente urbana.
Recordo todo o meu episódico percurso fadístico no Gefac com muita saudade, mas esta última viagem à URSS, ainda na era Bresnev, a um longínquo país que até aí pouco visitado era pelas nossas embaixadas artísticas, recordo-a com uma saudade redobrada porque, para além de se terem construído amizades duradouras, aí terem nascido nas românticas margens do Volga afectos ainda hoje florescentes, para além disso, aí se juntaram figuras de relevo na música de Coimbra que anos depois desapareciam: o Brojo, o Portugal e o Berna, companheiros de tantas e tantas cantigas… É a estes Amigos que dedico esta minha modesta prosa.

(*)Médico, 57 anos, tocador de viola
2003

Por MATOS PEREIRA

Caro Gefaquiano…
…era este o início de uma carta (antigos gefaquianos e direcção do GEFAC de então) que em 2003 seguiu para muitos (os possíveis, os de rasto conhecido, de endereço encontrado…) para se tentar iniciar a história do GEFAC, através de testemunhos, memórias…antes de muitas se apagarem.
Pretendia-se uma publicação com uma primeira parte da responsabilidade de uma “comissão de históricos” em que ficasse registado, com rigor, o Historial do GEFAC.
A segunda parte consistiria em depoimentos, acontecimentos vivenciados e relatados na primeira pessoa, curiosidades, factos a ficarem registados na história, episódios anedóticos, pequenos estudos e ensaios, fotografias, recordações de amores e desamores, saudades….Esta parte, assinada pelos próprios constituiria o nosso Penedo da Saudade, ou Penedo da Meditação…enfim o lugar onde se juntassem todos os afectos de todas as gerações…

Já perdemos memórias importantes (Tadeu, Rui Jorge, Zaida…)

Foram poucos os que responderam à chamada, à época, embora achando a ideia “gira”…

Desses…reza a história e esses testemunhos vão dar o pontapé de saída neste blog, criando-se assim um suporte talvez mais motivador de memórias e vontades.


CONTRIBUTO PARA AS HISTÓRIAS DO GEFAC
1963-2003
por j.rnatos. pereira@netcabpt

1- Pré-história do GEFAC – O GUDR
2- Pré-história do GEFAC – as danças da TUNA
3- A saída da Tuna e a fundação do GEFAC
4- O nome, o grupo, a etnografia, o folclore, a academia, Coimbra
5- A legalização e as relações com as autoridades académicas
6- Os corpos gerentes, a logística, os apoios dos organismos
7- Orquestra e bailadores, estudos interlocutores
8- Um excelente substrato humano
9- O GEFAC existe, resiste, persiste e existe

1 - In illo tempore
Quando cheguei a Coimbra, em 1963, já um bocadinho politizado por ter participado numa “secreta pró-associação liceal” e “aspirador” de música clássica, por ter assistido a uns concertozitos, integrei-me rapidamente nos «associativos» e em todas as organizações que tivessem a ver com Mozart, Beethoven, da Tuna à Juventude Musical, etc.
Por um lado, estava disposto a aprender “tudo”, por outro, estava seguro da minha “verdade”.
O «mundo» dividia-se, então, entre «associativos» que eram os de esquerda, os politizados, os esclarecidos, os amantes do espírito, da arte e da cultura e participavam, nem que fosse como espectadores, em tudo o que era «cultural», e os «outros».
Os «outros» espraiavam-se com várias gradações, desde «gajos porreiros», passando por outras categorias indefinidas, até aos da «direita».
Nas divisões simplistas de rótulos mal colados, por volta de 1964, os do Orfeão, os da Tuna, os praxistas, os de várias secções desportivas (futebol, basquetebol, hipismo, esgrima, tiro, aeronáutica) os da Real República do Pagode Chinês e de duas outras Repúblicas eram de direita.
No meio, existia uma vastíssima variedade de espécies amorfas, desde as miúdas dos lares, clubes de namorados e não só, que reuniam em garagens para tocarem e dançarem, aos marrões, aos jogadores de cartas, de lerpa, etc, aos pândegos e beberrões, frequentadores de bailes de faculdades à 4a e ao Sábado, etc, etc,
Os de todas as outras Repúblicas, do TEUC, do CITAC, do Cineclube, das secções culturais, especialmente daquelas que se dedicavam a estudos literários, cinematográficos, filosóficos, etc, eram de «esquerda»
O centro da Agit/Prop associativa, a agitação e propaganda, era o SIPE, Serviço ou Secção de Informação Propaganda e Estatística da AAC e, claro, fui lá parar.
É claro que, passado algum tempo, descobri que a realidade era bem diferente e encontrava-se um pouco de tudo misturado aleatoriamente, havia tipos cultos no Orfeão e na Tuna, podia encontrar-se um apaixonado par de esquerda num baile de faculdade, havia repúblicos beberrões, havia veteranos de esquerda e os órgãos tradicionais da praxe, Conselho de Veteranos e Conselho das Repúblicas sustentando as tradições académicas como bastiões progressistas.


2 – Pré-história do GEFAC – o G.U.D.R.
Em 1963 ainda não havia GEFAC, mas já existia o GUDR.
A minha primeira memória do GUDR, Grupo Universitário de Danças Regionais é a de ver uns “tontinhos universitários” a dançarem e a pularem descalços a tentarem imitar os pescadores da Nazaré, quando entrei, atraído pela música de um acordeão, numa sala de ensaios da Associação Académica, onde procurava um grupo de teatro de «esquerda».
Para um citadino de província que aspirava à grande cultura clássica, os ranchos folclóricos eram aldeões que animavam festas e romarias, mas aqueles saltitões não eram aldeões e as miúdas até dançavam com classe.
Fiquei um bocado a ver, gostei, mas fiquei confuso. Porque é que aquela gente se dedicava àquilo? A minha visão era muito parcial, muito voltada para a música clássica, admitia que universitários se interessassem…por balet, mas por aquilo? Numa análise muito «politizada» tive dúvidas se aquilo era uma actividade cultural…ou desportiva. Usava-se o intelecto, ou gastavam-se energias a pular?

3 – O GEFAC – Uma Instituição
O GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, tem uma origem remota, como convém a todas as instituições. Não podemos dizer que é anterior à Nacionalidade, mas podemos dizer, com propriedade jurídica, que a origem do GEFAC, a do seu substrato sociológico e da sua identidade é anterior à…nacionalidade do GEFAC, que só foi adquirida com a aquisição de personalidade jurídica…depois de 1974.
Outra forma de o nobilitar, (palavra esquisita!), é dizer que a sua origem se perde
no …Povo.
A terceira, é dizer que, até 1974, o GEFAC foi uma organização ilegal e clandestina, mas não exageremos! Fartou-se de fazer espectáculos e morou sempre no edifício da AAC até ao 25 de Abril!
Com este começo, já estamos perante uma verdadeira instituição e já podemos começar a História.
Mas, quando consideramos que o GEFAC é uma instituição, caímos no problema das instituições, o seu percurso percursor é sempre sinuoso e retorcido.
Temos que começar pela pré-história e a pré-história do GEFAC começa com o GUDR, o Grupo Universitário de Danças Regionais, secção cultural da AAC, Associação Académica de Coimbra. Sobre isso, poderão falar melhor os que participaram ainda das duas organizações, o Leão e a Zaida. Eu só posso falar de fora.

O G.U.D.R., Grupo Universitário de Danças Regionais era uma secção cultural da Associação Académica de Coimbra e não estava mal cotada nos meios associativos,
tinha participado activamente na Greve de 62, embora «dançar e pular» não fosse assim uma actividade…muito revolucionária! A vitória da esquerda por poucos votos nas eleições para a Direcção-Geral da AAC de 64/65, a radicalização e a repressão que se seguiu culminaram com o encerramento da AAC e de todas as secções, salvo as desportivas, em 65 e a nomeação pelo Governo de uma Comissão Administrativa para a AAC.
Cultura passou a ser sinónimo de esquerda e desporto de direita (com raras excepções). O GUDR, que era uma secção cultural da AAC, foi extinto e o seu valioso espólio e guarda-roupa ficou armazenado em depósito.

4 –Onde entra a TUNA
Entretanto a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, cujos principais dirigentes de 64/65 alinhavam à direita, tinha uma nova Direcção, tinham saído alguns dos seus elementos mais à direita e entrado alguns mais à esquerda, passando a distanciar-se da direita académica representada, então, apenas pela Comissão Administrativa da AAC e pelo Orfeão. A Direcção da Tuna de eleição recente, durou pouco e as dissenções internas levaram à eleição de uma nova Direcção no começo de 67, a que presidi, e em que o Rui Pato era o Secretário, uma direcção também de composição mista, esquerda/direita mas um pouco mais à esquerda e com várias ideias de renovação que iam desde, a abertura às mulheres, ao reposicionamento político e a outras linhas, nem sempre de fácil compatibilização.
A Tuna era, desde a fundação, exclusivamente masculina. O espectáculo típico tinha uma primeira parte de actuação da Tuna que, por preconceitos culturais, era cada vez mais uma orquestra sinfónica, e que era a linha de orientação do maestro, partilhada também pela generalidade dos membros e pela direcção, e uma segunda parte do espectáculo, muito mais apreciada pelo público, formada pela actuação da Orquestra de Tangos, pelas Variedades e pelo Grupo de Fados e Guitarradas, com alguns membros da Tuna e estrelas convidadas.
Com o apoio declarado do Rui Pato, secretário da Direcção, chefe do naipe das violas, então a autoridade máxima da música coimbrã, acompanhante do Zeca Afonso e encarregado dos cursos em Coimbra da Escola de Guitarra Clássica Duarte Costa, o expoente máximo da guitarra clássica em Portugal, na altura, abriu-se o precedente de admitir uma mulher.
A Tuna lançava também o Conjunto de Câmara Carlos Seixas, reforçando a componente de música séria.
Tinha-se rompido a exclusividade masculina da Tuna com a admissão da Laury, uma suiça de esquerda que frequentava um curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras, apadrinhada pelo Rui Pato. A Tuna tinha falta de violinos, recorrendo desde há muitos anos a dois violinistas, não estudantes, pelo que o maestro viu com muito agrado a entrada para a Tuna e para o Conjunto de Câmara de uma violinista liceal, a Isabel Cristina Pires. Entrou também uma boa acordeonista, a Fernandinha (Brasileira) Mendes, aluna de Medicina e, de uma outra colega de Medicina para as violas.
Havia condições para acabar com o espírito «machista» da Tuna e para a entrada de mais mulheres. As “Variedades” eram uma possível porta de entrada para a modernização.
Constava, entretanto, que a Comissão Administrativa da AAC queria recuperar as danças regionais, consideradas apolíticas e inofensivas e tinha feito abordagens a antigos membros do GUDR que não se tinham mostrado entusiasmados, dada a impopularidade da Comissão Administrativa.
A Direcção da Tuna soube disso e antecipou-se, contactou antigos elementos do GUDR para participarem no espectáculo de variedades, pediu emprestados, ao Reitor, os fatos do Minho e Nazaré do ex-GUDR, que estavam armazenados pela Comissão Administrativa. O Reitor admitiu a hipótese de a Tuna ter Danças Regionais nas Variedades da Tuna e admitiu que era preferível a utilização dos fatos do ex-GUDR pela Tuna, do que conceder um subsídio à Tuna, com essa finalidade, mas obrigou a Direcção da Tuna a pedi-los, por escrito, à dita Comissão Administrativa que os entregou prontamente, esperançada em que a Tuna, engordando o seu substrato sociológico com dançarinos supostamente não politizados, se voltaria a aproximar da direita académica. A Tuna ficou, de repente, com uma secção de danças regionais liderada por ex-membros do GUDR, a Zaida e o Leão e em que boa parte da orquestra era formada por membros da Tuna, o Normando, o Reis, o Frias e outros e a que aderiram entusiasticamente algumas namoradas e, sobretudo, ex-madrinhas da Tuna e damas de honor de Viana do Castelo que entretanto já estavam a estudar em Coimbra. O grupo era entusiástico e animado, cantava e pulava músicas populares e contrastava com um certo cinzentismo de uma tuna de capa e batina sentada em semi-círculo tocando música clássica, ou com um Conjunto de Câmara que se esforçava noutro sentido e perseguia a virtuose.

5 – Pré-história do GEFAC – as danças da TUNA
A primeira tourné demonstrou a dificuldade de conciliar na Tuna as duas realidades, a clássica e a folclórica, a masculina e a feminina, subitamente muito grande.
Até aí, a Tuna viajava num só autocarro de 44 lugares e passou a ter de utilizar dois.
A Tuna só masculina, podia alojar-se em camaratas de tamanho quase limitado. Já não era o mesmo com duas ou três preciosas meninas na Tuna, mas a logística de número de rapazes e raparigas praticamente equivalentes era mais complicada.
Os Estatutos da Tuna não previam secções. Previam naipes, representados num conselho artístico.
Os naipes que existiam eram de violinos, violas, bandolins, bândolas, madeiras, baixos, violoncelos, acordeões e percussão e era-se sócio efectivo por naipes. Numa altura em que o Ministro da Educação não aprovava alterações de Estatutos de Organismos Circum-Escolares e tinha retido uma alteração de Estatutos do TEUC, a Tuna não podia alterar os estatutos, nem haveria fácil consenso sobre o assunto. Um naipe de Minho? Um naipe de Nazaré? De corridinho do Algarve? Como se os bailarinos eram os mesmos? Não era sustentável as danças serem a colónia da Tuna, cujos órgãos detinham todo o poder de decisão sobre espectáculos, etc.



6 – A saída da Tuna e a fundação do GEFAC
O grupo de membros simultaneamente da Tuna e da orquestra das danças, entre eles o Reis, o Normando e alguns elementos da direcção da Tuna, eu próprio, o Rui Pato e o Frias chegámos à conclusão de que era necessário e conveniente lançar e apadrinhar um novo organismo independente, ideia que agradou tanto aos elementos da Tuna que não se sentiam identificados com as danças e que se reforçavam as ideias de uma orquestra sinfónica e de câmara, como aos membros das danças que não podiam ser sócios efectivos e não se sentiam identificados com a Tuna. Com a independência podiam fazer-se espectáculos separados e conjuntos, quando fosse conveniente e resolviam-se problemas logísticos e também de política académica. A Tuna também estava a ser vista por organismos de esquerda e da direita como demasiado expansionista, duplicando o número de membros, invadindo a área das danças regionais, que era um mundo em expansão, e tornando-se mista.
Com ou sem danças, a Tuna já era mista, mas ficava-lhe mal ser expansionista e sobretudo não podia ser «colonialista» tendo uma secção sem direito de voto.
Envolvendo os outros organismos no apoio a um novo organismo desfaziam-se algumas tensões e reforçava-se o bloco de organismos que se opunham à existência da Comissão Administrativa da AAC. Mas como é que se poderia passar para o novo organismo um guarda-roupa de que precisava, mas que estava formalmente emprestado à Tuna pela C.A. da A.A.C? E como é que se podia conseguir a legalização do novo organismo? E como é que se conseguiriam as redistribuições de salas de ensaios e salas administrativas do bloco da AAC de que o GEFAC precisava e que utilizava a pedido da Tuna? A sobrevivência das danças e o regime de transição para um organismo autónomo exigia habilidade e contactos fáceis quer com os outros organismos quer com a Reitoria.
A acção diplomática junto dos outros organismos, designadamente o Coro Misto e o CELUC -Coral das Letras foi fácil. A sugestão de que tinham interesse na existência de um novo organismo de danças regionais independente da Tuna que poderia actuar com qualquer deles quando lhes interessasse enriquecer a segunda parte do espectáculo de um clássico coro de capa e batina, foi bem recebida e o próprio Orfeão vislumbrou a hipótese de a existência de um novo organismo pouco politizado ajudar a quebrar o isolamento a que estava remetido

7 — O registo de nascimento, o nome, o grupo, a etnografia, o folclore, a academia, Coimbra
A decisão de criar um novo organismo foi tomada em muito pouco tempo em vários tabuleiros simultaneamente, na Tuna, no grupo de danças, e na intriga «associativa» pois era necessário o «reconhecimento» e o apoio logístico dos outros organismos, para obstar à eventual e provável oposição da CA da AAC e da Reitoria.
A decisão chave da independência foi tomada pela Direcção da Tuna, não foi uma rejeição, mas foi uma solução do agrado de todas as partes, monitorada e liderada por um núcleo duro comum aos dois organismos.
O registo de nascimento do GEFAC encontra-se nas actas da Direcção da Tuna que aprovou formalmente a independência, como a solução mais adequada e prática.
A decisão de ir para a frente animadamente com um grupo independente teve um grande empenho dos que dançavam e tocavam, dos mais antigos e activos bailadores e dos membros da orquestra, que também eram da Tuna, mas houve um grupo, constituído por mim, pelo Rui Pato e pela Fátima Saraiva, grupo que não dançava nem tocava nas danças e que, na altura, era mais «politizado» e que se ocupou activamente da concepção do projecto, dos estatutos, do nome, da orientação, das medidas administrativas e das muitas acções «diplomáticas» do lançamento do GEFAC.
Ao mesmo tempo que me mantinha como Presidente da Direcção da Tuna, o que facilitava o diálogo com os organismos e com a Reitoria, assumi a liderança do projecto e a Presidência da Direcção Provisória do futuro GEFAC apoiado por um grupo que pertencia a ambos os organismos e por alguns que pertenciam apenas a um deles. Na Tuna tinha o apoio forte do Rui Pato, que era o Secretário da Direcção, membro do Conjunto de Câmara Carlos Seixas e do Conselho Artístico e, sobretudo, era uma Autoridade Musical muito prestigiada, que ajudara a Tuna a tornar-se mista. Na Direcção provisória do novo organismo, tinha o apoio da Vice-Presidente Fátima Saraiva que não dançava nem tocava e de outros e outras com menos disponibilidade administrativa, porque tinham de ensaiar como o Rui Jorge, a Lena e a Milena, a Zaida, o Leão, etc, e assim se assegurou uma solução de uma transição pacífica e «protegida» para a independência.
Já agora, podemos falar do nome GEFAC. Quanto a chamar-se GRUPO, havia um certo consenso, a tradição do GUDR já se chamar grupo, o facto de todos os GRUPOS folclóricos de chamarem grupos, nome preferível a «rancho» não havia problema. Grupo não comprometia, podia subsistir mesmo se fosse recusada a homologação como organismo circum-escolar, sujeito à lei em vigor que atribuía poderes discricionários ao Ministro da Educação até para homologar ou não, os corpos gerentes eleitos.
Já UNIVERSITÁRIO, como se chamava o GUDR, parecia demasiado pretensioso e elitista, sendo preferível que se chamasse DA ACADEMIA DE COIMBRA, um nome mais «associativo».
DANÇAS, como o GUDR, era demasiado «esforço fisico» enquanto FOLCLORE tinha um ar mais intelectualizado, que se reforçava se as preocupações do grupo
incidissem em estudos de «etnografia», muito do agrado da Fátima Saraiva que não dançava e associava os estudos de etnografia à geografia que estudava na Faculdade de Letras.
E foi assim que o GEFAC foi baptizado GRUPO DE ETNOGRAFIA E FOLCLORE DA ACADEMIA DE COIMBRA enquanto se aprovava a independência se
estabelecia a lista dos sócios (eu era o sócio número 1 até outro se apropriar da
primeira posição ordinária), a lista dos corpos gerentes, uma intensa actividade de visitas de cumprimentos e de pedidos de apoio logístico, etc.
Nesta intensa actividade diplomática que começou pelos organismos, que
prontamente «reconheceram» o novo grupo e lhe cederam o uso partilhado de salas de ensaio e administrativas, tiveram um papel importante algumas das colegas mais
bonitas e vistosas que de mini-saia e sorriso em punho ajudavam a aplainar resistências e a obter consistências.

8 - A legalização e as relações com as autoridades académicas,
Embora eu fosse aluno de Direito, sujeito à repetição constante da ideia da superioridade do direito positivo e à quase irrelevância do direito natural, fiquei chocado e surpreendido com o efeito produzido no Reitor e no Secretário da Universidade por um argumento que improvisei em resposta a um rotundo não do Reitor à ideia de legalização do novo organismo de acordo com a legislação circum- escolar.
Comecei por pedir uma audiência como Presidente do novo organismo para a Direcção Provisória apresentar cumprimentos e expor alguns problemas e a resposta foi negativa. Usei então o título de Presidente da Tuna, pedindo uma audiência para expor as razões pelas quais a Tuna achava que as danças tinham de se autonomizar e fui recebido pelo Reitor e pelo Secretário da Universidade, mas logo de início o Reitor declarou-me que já tinha informação do Ministro de que seria recusada a aprovação de estatutos e a criação de qualquer novo organismo circum-escolar e que só a Comissão Administrativa da AAC podia voltar a criar secções que constassem dos Estatutos.
Respondi, na emergência, que não havia grande problema em o GEFAC ser ou não legalizado, até era bom para o GEFAC não estar submetido à legislação circum- escolar, pois não havia coisa mais anti-folclórica do que um grupo folclórico precisar de estatutos e de aprovação para cantar e dançar e dei até o exemplo de vários grupos de norte a sul que me vieram à cabeça, dos grupos de fados de Coimbra que cantam e fazem serenatas, existem e gravam discos, ou das trupes que executam a praxe, ou as repúblicas que tinham hinos, bandeira e brasões próprios, sem serem reconhecidos pelo governo.
Fiquei surpreendido com a surpresa deles e perguntei se, ao menos, viam algum
inconveniente em que a Tuna deixasse de ter danças regionais e concluí que estavam confundidos porque não podiam dizer que não.
A confusão pareceu-me ainda mais completa quando obtive o seu assentimento de que não estavam em causa os novos corpos gerentes, pois se o Ministro da Educação tinha homologado o meu nome como Presidente da Tuna, isso era uma garantia de que não haveria razões de confiança para que não fosse homologado como Presidente do GEFAC. Se os dançarinos podiam dançar sob a autoridade da Tuna, porque não poderiam dançar nos espectáculos de outros organismos?
Saí com a ideia de que o GEFAC não iria ser legalizado, com estatutos aprovados, mas não podia ser ilegalizado, porque possuía uma legitimidade própria não
dependente do direito positivo — um grupo folclórico existia porque existia pela
simples vontade dos seus membros cantarem e dançarem em qualquer parte, e isto era tão natural que não era proibível, porque mesmo na lógica da política proibicionista e
autoritária do govemo seria considerado ridículo proibir uma coisa naturalmente apolítica.
Também não fazia sentido autorizar os outros organismos a terem uma segunda parte do espectáculo com grupos de fados e proibir-lhes que tivessem danças regionais.
As reuniões seguintes, pedidas ao Reitor para analisar alguns detalhes pendentes da Independência das danças da Tuna eram passadas ao Secretário da Universidade, que ficava tão encantado com as lindas colegas que me acompanhavam com magníficas mini-saias, que, no meio de conversas fúteis e pormenores mais sérios, dizia a tudo que sim e, para surpresa dele, eu fazia um resumo das conclusões a que chegáramos e que eram, em vários casos, favoráveis aos interesses do GEFAC.
Não foi pois com fatos de Minho ou de Nazaré, mas com simpatia, sorrisos e mini- saias que se conseguiram alguns êxitos diplomáticos.
Entretanto interessava a alguns organismos de esquerda apoiar o GEFAC, o que significava o fim da rápida expansão da Tuna, retirava-lhe peso e importância, número de membros, iniciativa e influência, pelo que acederam a emprestar salas de ensaio e de direcção ao GEFAC. Também o Orfeão, isolado à direita, viu uma oportunidade de quebrar o isolamento e atrair para a sua influência um grupo que não seria politizado e cuja conquista por dentro estava a ser preparada por um grupo mais à direita.
Passada a primeira fase, em que era útil que eu presidisse aos dois organismos, porque podia utilizar nas relações «diplomáticas» iniciais o chapéu mais conveniente e que menos resistências provocasse, era altura de convocar eleições e passar a ter um papel mais discreto, como Presidente do Conselho Fiscal.Todos tinham interesse em que a separação da Tuna se consumasse e marcaram-se eleições, até com a atenta expectativa do Orfeão que depositava esperanças eleitorais num grupo mais à direita que veio a falhar.
Entretanto o GEFAC reforçava a sua identidade e unidade, mais namoros e interesses comuns solidificavam um grupo coeso, que dançava furiosamente logo que ouvia umas notas de acordeão e já mostrava ser imparável.

9 - Os corpos gerentes, a logística, os apoios dos organismos
Foi assim que a Direcção passou a ser presidida pelo Rui Jorge com a Fátima Saraiva a continuar Vice-Presidente, numa Direcção em que creio que as mulheres estavam em
maioria, mas o melhor é consultarem as actas porque já passaram mais de 35 anos e a minha memória está constantemente a ser ocupada e desocupada por outras recordações.
A logística fornecida por outros organismos mistos que encorajavam o nascimento de mais um organismo misto, foi prudente nos termos provisórios de empréstimo e de utilização de salas, mas um apoio cordial e estável, ou estabilizado com as mudanças de direcções habituadas ao status quo.
Assim subsistiu um organismo ilegal, não reconhecido, mas que podia afirmar que não havia nada de mais anti-folclórico do que pedir autorização para dançar.

10- Orquestra e bailadores, estudos e interlocutores
Confesso que o GEFAC me deu muito gozo a criar e que tive imensos pequenos prazeres como actor e observador em diversos momentos, mas no GEFAC fui também um poço de falhanços.
O primeiro falhanço é que não pertenci à orquestra, por várias razões, a primeira era que a orquestra não tinha descanso, tocava com os do Minho e com os da Nazaré e eu precisava de tempo para outras tarefas, depois porque eu tocava bandolim na Tuna e no GEFAC o que era preciso eram violas, cavaquinhos, acordeões, baixos, ferrinhos e vários instrumentos populares em que outros levavam vantagem e também não me apetecia tocar apenas em part-time.
O segundo falhanço foi nunca ter dançado. Na altura não podia dançar o Minho ou Nazaré, porque tinha um problema de circulação nas pernas que me provocava cãimbras quando fazia esforço, corria ou saltava. Saí-me mal de uma ou duas experiências e percebi que não devia continuar.
O terceiro falhanço é de outra ordem. Havia demasiadas raparigas bonitas e interessantes no GEFAC. Quando assistia aos ensaios, adorava a graciosidade de algumas bailadeiras a voltearem, mas não me decidia a propor-me a nenhuma como par, enquanto elas não tinham par certo. Confesso que a certa altura me senti fortemente atraído por uma minhota, senti que fui correspondido mas fui muito demorado nas minhas hesitações, porque estava nessa altura prisioneiro de outros «amores impossíveis» e acabava por me realizar melhor na intriga associativa e nas tarefas políticas, diplomáticas e administrativas de impor o GEFAC, a par de uma variedade de outros interesses que prosseguia na Tuna e noutros organismos.
Pensei dedicar-me a impulsionar a parte «intelectual» do objecto do GEFAC, os estudos etnográficos, com a Fátima Saraiva com quem já partilhara algumas das intrigas e construções político administrativas da fase anterior de instalação, mas qualquer de nós tinha demasiados interesses alternativos para termos realmente tempo comum para estudos desta natureza e outros valores mais altos se levantavam nos meios associativos que me atraiam mais.

11 - Um excelente substrato humano
O GEFAC estava lançado e não mais pararia. A Reitoria e as autoridades
académicas perceberam que não era a lei que impedia a existência e a vida do
organismo. Os Gefaquianos perceberam que podiam passar sem a lei e que a
solidariedade interna e o projecto comum é que eram importantes.
A solidariedade académica dos outros organismos compensou em legalização de facto
a ausência de legalização das autoridades.

12- O GEFAC existe, resiste, persiste e comemora
Em 1969-70 estava cada vez mais atraído pela Informática e por Lisboa para onde imigrei e passei a acompanhar a vida do GEFAC sobretudo pelos encontros periódicos dos que para Lisboa migravam e a acompanhar indirectamente todas as outras actividades do GEFAC de cada geração e das actividades comemorativas das gerações anteriores acumuladas com um distanciamento que resulta de nunca ter dançado nem tocado no GEFAC, de ter participado pouco na essência da vivência comum do grupo e de sentir que fui mais parteiro do que outra coisa. Mas garanto-vos que o pouco que fiz foi muito divertido, sentia que estava integrado no gozo que todos tínhamos e deu enormes frutos a longo prazo.

Lisboa, 28 de Abril de 2003
José Manuel Matos Pereira

domingo, 29 de março de 2009

O princípio

Tudo tem um princípio...
Por isso este é o primeiro post.
E para não condicionar ninguém... aberto, livre...

Este é o primeiro...