Em 2003 Carlos Faria dizia assim…
Caros Amigos, Celeste (dos "velhos") e André (dos "novos"),
C/ 1 abraço para ambos e uma beijoca especial para a Celeste, aqui vão algumas
lembranças do nosso Gefac.
Embora todos os relatos que farei sejam verdadeiros, peço-vos a maior tolerância para a indisciplina da apresentação e para a falta de distanciamento das estórias: a primeira, deve-se ao facto de vos escrever ao correr da pena (do computador...); quanto à segunda, o ter vivido no Gefac, para o Gefac, com o Gefac durante tantos anos, não me dará, estou certo, a frieza do historiador...
Há também que contar com a idade cá do rapaz que me provocará certamente alguns lapsos de memória Conto convosco para salvar o que possa ser salvo destas linhas...
Aqui vão algumas estórias ...
1. Cheguei a Coimbra em 1965 e "aterrei" no Orfeão, onde era um "baixo" da mais baixa categoria possível. Lá andei a fazer número ( e barulho, porque canto "mal e porcamente"...), até que, no início do ano lectivo seguinte (1966/67), alguns amigos do meu tempo de liceu de Viana (a Rosa Guedes, por exemplo) e outros (a Lena Remelhe, minha colega em Direito, por exemplo), na sua maior parte "antigos" do GUDR (Grupo Universitário de Danças Regionais), um "ramo" da Tuna (organismo dominado à época pela extrema-direita...), me convidaram a juntar-me ao recém-constituido (a constituir?) GEFAC. "Alinhei" e, desde então, não mais me curei da maleita: tornei-me num dos primeiros sócios, fui da Direcção (na Crise de 1969 lá estava eu, a levar porrada da polícia, a ser detido por ser "o Beato" da R. Manuel Bastos Pina...), ensinei a dançar o meu Minho a centenas de novos gefaquistas (alguns, confesso, nunca aprenderam...), namorisquei (namorei, amei...) todas as raparigas que me deram trôco (aqui entre nós, poucas, a meu ver...), fui pr'á tropa em 1970, mas continuei "na casa"( Direcção, espectáculos, ensaios...) e, finalmente, casei (faz este ano 31 anos) com a Ana Maria, uma gefaquista entrada em 1969 e que eu, parvo, só "descobri" um ano mais tarde, numa célebre deslocação ao Algarve (de que falarei mais adiante...) .
2. Estamos em 1966. O GEFAC não "tem onde cair morto": trajes (Minho, Nazaré e Beira) e instrumentos musicais só existiam os que, certamente como preparação para os Jogos Olímpicos, tinham "saltado" de dentro dos armários da Tuna para as nossas nóveis instalações na Associação; o dinheiro vem apenas das quotas dos Sócios; não há quaisquer subsídios (nem da Reitoria, nem da Gulbenkian, à época a “CEE” dos Organismos Autónomos…) porque o Organismo tem fama (e proveito) de ser
constituído por uma corja de “reviralhistas”.
Há que puxar pela imaginação, mas, ao contrário do que actualmente é moda, não passa pela cabeça de ninguém fazer pagar a crise aos Sócios, aumentando as quotas. (A reacção destes seria, aliás: não pagamos! não pagamos! não pagamos!...). Aí, viramo-nos para as "potencialidades" do mercado: as deslocações (todas para sítios exóticos, como a aldeia do nosso saudoso Rui Jorge, o Meco, perto da Figueira, eram sempre pagas... com grandes bebedeiras e os "comes" a acompanhar; os altifalantes e os microfones que tínhamos, eram todos "adquiridos" aquando dessas nossas grandes viagens junto das "sedes locais" de um partido, perdão, de uma entidade que ainda hoje existe, a Igreja Católica...; os mais abonados cuja famíla tinha trajes regionais eram cordialmente convidados a surripiarem os ditos e a juntá-los ao enxoval do Gefac.
3. Por falar no Meco... Estamos em 1966, e o Gefac vai dar um espectáculo ao
Meco. Somos recebidos pelas autoridades locais e pela Banda de Música. O cortejo
segue até ao centro da freguesia, rodeado por toda a população que nos franqueia
as portas de casa. Com. mais alguns gandulos (e, provavelmente, gandulas), entro
numa casa. O fogão de lenha está aceso. Num alguidar (para os citadinos, "alguidar"=bacia em barro vidrado), jazem uma febras, semi-imersas em vinha-d'alhos. O ataque é imediato. Sinto-me entalado só porque não me lembro de onde saiu o tintol para empurrar as melhores febras da minha vida!...
4. 1966. Espectáculo em Valadares, terra das Lenas (Remelhe e Milena). Além do povão, temos na assistência gente fina, incluindo o Governador Civil. Antes do espectáculo, estupidamente, dão-nos um lauto jantar.
Como sempre, começamos com o Minho (seguiam-se, se bem me lembro, a Beira, a
Nazaré, as "Variedades" (notícias da "televisão", música pelo Duo Nolu (Normando+ Luis Pais Borges), uma "peça" de teatro humorística (ex, a "Inês de Castro" - onde pára esse texto maravilhoso?..) e, no fim, os fados. Acabado o Minho, liberto, molho (ainda mais) as goelas. O resultado era de esperar: um pifo monstro! Dá-me p'ró disparate: quando o Duo Nolu acaba mais uma canção, entro no palco, cambaleante, e exijo que toquem para mim o "Solamente una vez". O Duo, aflito, começa a tocar: Os
espectadores convencem-se que o bêbedo faz parte do cenário e riem (e, pasme-se, aplaudem!...). Com a língua entaremelada, sem saber toda a letra da canção, oscilando diante do micro, acabo(?) a canção e desapareço sob os aplausos. Nessa noite, na ceia, evitei encontrar-me com o Normando e o Luis...
5. 1966. Tomada da Bastilha. Espectáculo no Teatro Avenida, em Coimbra. Chega o momento da peça de teatro (quem tem o texto desta peça?). Estou no palco sozinho e devo chamar pelo "povo" para fazer entrar o dito (o Rui Jorge que, entretanto, deve despir rapidamente o "fato da Nazaré" e albardar-se com o do "Povo")). Chamo: "ó, Povo!". Nada... "Ó, Povo!". Nada... O tempo passa, os espectadores mexem-se nas cadeiras, enervo-me... Ainda tento, uma vez mais: "Ó,Povo!". Face ao silêncio que continua (o Rui Jorge atrasou-se...), desesperado, grito: "Ó, Rui Jorge, chama aí o povo!"... A gargalhada é geral...
Meus Amigos, talvez haja outras coisas para contar, mas não me ocorrem.
(Lembrei-me agora das n deslocações, obviamente infrutíferas, da nossa Direcção do Gefac a Lisboa, para obter o "reconhecimento oficial" do Ministro da Educação - o democrata Hermano Saraiva , condição sine qua non para poder pedir subsídios à Gulbenkian e Reitoria; lembrei-me agora que em 1969 fomos único Organismo que
Dentre os seus mais de 100 inscritos não teve um só que furasse a Greve (o único que tentou, o Mesquita, que tocava acordeão, foi expulso, numa A. Geral ad hoc) .
Se achardes que algo se pode aproveitar, a Celeste, com o seu Português apurado,
de certeza que salvará o que fôr útil...
Um Grande e Amigo abraço gefaquista do
Carlos Faria
Bruxelas 2003
sábado, 27 de junho de 2009
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