sábado, 27 de junho de 2009

Por RUI PATO

NO GEFAC OUVIU-SE O FADO!
Rui Pato (*)

Não tenho grande vivência com o GEFAC, tive apenas alguns períodos em que dei maior colaboração e em que convivi mais com as pessoas do GEFAC. Isto porque a minha habilidade era a de tocador de viola, e como tal, o meu organismo académico, de raiz, foi sempre a Tuna; mas, como todos os organismos académicos nos anos 60, por uma ou outra razão, necessitavam sempre de tocadores de viola eu, umas vezes colaborava com organismos teatrais (Citac) fazendo músicas de fundo para as suas peças, outras vezes colaborava com o Orfeon como elemento de um grupo de fados, e na Tuna, tanto era elemento da orquestra como do grupo de fados. Tive também uma fase em que fiz parte, ocasionalmente de um grupo que tocava fados de Coimbra no espectáculo do GUDR, antecessor do Gefac.
Quanto ao Gefac, eu fiz parte da equipa directiva da Tuna quando o organismo foi gerado, quando saiu do ventre da Tuna e, portanto sinto-me um pouco como progenitor (afastado) deste organismo autónomo da Academia. Só em 1971, já licenciado, eu sou chamado a ter uma colaboração activa no Gefac, colaboração essa que se prolongou de uma forma cíclica e irregular até 1984. Essa minha colaboração foi sempre na minha qualidade de cultor do fado e da canção coimbrã.
Como é sabido, após a crise académica de 1969, houve uma posição da Academia, tomada em Assembleia Magna, que deliberou pelo Luto Académico. Essa posição foi entendida como impedindo todas as manifestações da praxe, tal como a Queima das Fitas, Latadas, Serenatas, etc. Por este motivo as guitarras, as violas e as vozes calaram-se em Coimbra e só passados dois ou três anos, se iniciaram movimentos de reimplantação das tradições, incluindo o fado.
Mas, em 1971, o Gefac entendeu e bem, que deveria incluir a canção de Coimbra nos seus espectáculos, pois ela fazia parte da etnografia e do folclore urbano da nossa cidade. Os dirigentes da altura convidaram-me no sentido de construir uma “viagem” ao canto coimbrão através dos tempos, com texto explicativo e com exemplos do fado académico durante essas mesmas fases.
Fez-se um texto que retratava o fado dos anos 40 e cantava-se um exemplo; depois dava-se outro exemplo da década de 50, depois o aparecimento, durante as crises académicas e as eleições do Delgado, das Baladas do Zeca Afonso e, nos anos 60 o movimento das trovas com Adriano, Manuel Alegre e António Portugal. O espectáculo, incluído no guião habitual dos espectáculos do Gefac, resultou muito bem, apesar de alguns constrangimentos que eram a falta de cantores! Para isso eu fui transformado em professor de canto e ensinei dois fados ao Luís Marinho, que nunca tinha cantado e ao Luís Pais Borges que, ainda era menos versado nas artes canoras…
Com guitarrista andava connosco o Luís Cerqueira (“O Sócio”) e como viola, obviamente, estava eu. Conseguiu-se um resultado muito satisfatório, tendo assim nascido um grande cantor – o Luís Marinho! Ainda hoje é difícil encontrar quem tão bem cante a “Samaritana” e a “Canção com Lágrimas”!
Julgo que estreámos este modelo de espectáculo no verão algarvio em 1971. Fui todo o caminho a ensinar os cantores neófitos a respirarem, a dividirem o poema, etc., etc. Valeu a pena! Se o Pais Borges renegou, depois dessa experiência, a sua carreira fadística, o Luís Marinho apaixonou-se pela canção de Coimbra e ainda mostrou (e gravou) excelentes contributos para o canto da nossa cidade.
Este tipo de roteiro foi mais tarde, em 1992, aproveitado, completado com grande rigor e levado aos palcos do país e do estrangeiro por António Portugal e Pinho Brojo, nos espectáculos a que chamou “40 anos no Canto e na Guitarra de Coimbra” em que também tive o gosto de colaborar assim com o Luís Marinho. Foi, portanto, o Gefac um importante marco no ressurgimento da canção de Coimbra, numa época em que voltar a cantar era difícil e em que a inteligência da Direcção do Gefac, na altura, soube aproveitar e divulgar com qualidade.
Depois desses anos voltei a colaborar com o Gefac já após o 25 de Abril, em 1977, numa viagem à URSS em que levámos uma selecção de fados. Aí cantaram o Luís Pais Borges e o Borges Pinto (imaginem!). Foi a primeira vez, creio eu, que nos palcos de Moscovo se ouviram as vozes, as guitarras e a poesia de Coimbra. Fez-se o que foi possível com um grupo que compensava com a boa vontade aquilo que lhe faltava em experiência fadística, pois, de todos, só eu tinha experiência e, por isso, tive que ensinar instrumentistas e cantores! É que o reduzido orçamento não permitia que se fossem convidar “verdadeiros” cultores do fado, aumentando assim o número de elementos.
Tinha que se utilizar a “prata da casa”.
Finalmente, em 1984, voltei a estar com o Gefac, de novo numa digressão à União Soviética, numa embaixada cultural, com espectáculos em Moscovo, Leninegrado, Yaroslavi (cidade geminada com Coimbra), Rostow e Kiev. Aí, o elenco era de luxo!
As guitarras eram do Brojo, do António Portugal e do Lopes de Almeida; eu e o Levy Baptista nas violas e como cantores foi o Fernando Machado Soares, o José Mesquita, o António Bernardino (o Berna) e o Luís Marinho. Foi feita uma gravação para a televisão da Ucrânia, vários espectáculos de grande responsabilidade, um êxito enorme críticas sempre muito favoráveis. A presença da música de Coimbra, através do Fado dos estudantes, das suas guitarras, das baladas e das trovas, enriqueceu, no meu entender, o conteúdo dos espectáculos do Gefac e a sua mensagem. A canção de Coimbra tanto serviu para mostrar, nos seus aspectos históricos, o percurso sociocultural da Academia, como na demonstração dos seus temas, as suas, as suas raízes populares e a sua vertente urbana.
Recordo todo o meu episódico percurso fadístico no Gefac com muita saudade, mas esta última viagem à URSS, ainda na era Bresnev, a um longínquo país que até aí pouco visitado era pelas nossas embaixadas artísticas, recordo-a com uma saudade redobrada porque, para além de se terem construído amizades duradouras, aí terem nascido nas românticas margens do Volga afectos ainda hoje florescentes, para além disso, aí se juntaram figuras de relevo na música de Coimbra que anos depois desapareciam: o Brojo, o Portugal e o Berna, companheiros de tantas e tantas cantigas… É a estes Amigos que dedico esta minha modesta prosa.

(*)Médico, 57 anos, tocador de viola
2003

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