sábado, 27 de junho de 2009

Por PAIS BORGES

JORNADA DE CASTELO BRANCO


Uma das jornadas mais marcantes da história do GEF AC foi, sem dúvida, a do espectáculo no Cine-Teatro de Castelo Branco, no dia 15 de Maio de 1970, integrado nas comemorações do 130 aniversário da Orquestra Típica Albicastrense (vd. recorte de jornal junto), com toda a envolvência social, política e melodramática que o rodeou, e que nos fez sair do Cine-Teatro escoltados pela Polícia, com detenções pelo meio, e um regresso atribulado a Coimbra altas horas da manhã, após a intervenção do Reitor da Universidade.

Decorrido apenas um ano sobre a crise académica de 1969, era normal uma apertada vigilância da PIDE sobre as actuações dos organismos académicos, sobretudo em deslocações a localidades da província.

Daí que, nesse dia, tenhamos sido "acompanhados", de forma mais ou menos disfarçada, até Castelo Branco, até porque o autocarro em que seguíamos ostentava no vidro traseiro um cartaz alusivo à situação na Academia, e, pelo caminho, saíam de quando em vez pela janela uns comunicados da Direcção-Geral da AAC, em que se informava a população sobre a luta estudantil.

Ao chegarmos a Castelo Branco, pelas 18 horas, e após descarregarmos o material no Cine-Teatro, apercebemo-nos de que do outro lado da praça (uma praça ampla e com muitas árvores), se situava um Quartel Militar

É evidente que alguns sócios começaram a meter conversa com os soldados, junto à rede de vedação do quartel, o que terá motivado alguma preocupação junto das autoridades locais. Com efeito, passado algum tempo, fomo-nos apercebendo da presença, junto a cada árvore da praça, daquelas figuras sinistras, de fato escuro, gabardine e chapéu enterrado na cabeça, de silhueta carregada, a controlar disfarçadamente todos os movimentos dos subversivos intrusos coimbrãos.

À noite, o espectáculo decorreu sob forte tensão emocional, pois que havia polícias dentro do Teatro, nos próprios bastidores, alegadamente (segundo a Organização) por "razões de segurança", situação que gerou justificada revolta dos sócios e da direcção do organismo.

Cerca das 23 horas, quando decorria uma declamação de poesia, gerou-se grande burburinho dentro do Teatro, tendo a Polícia irrompido bastidores adentro, ordenando o imediato encerramento do espectáculo.

Soube-se, entretanto, que a Mena Delgado tinha sido momentos antes detida pela Polícia no exterior do Teatro, a distribuir comunicados à população, e que a Polícia exigiu fazer uma revista ao autocarro, em busca de mais material subversivo, tendo passado a pente fino o interior do veículo e toda a bagagem encontrada.

Alguém da direcção conseguiu entretanto anunciar, no palco, que o espectáculo tinha sido interrompido por ordem expressa da Polícia.

Com a natural confusão entretanto gerada, e com muitos nervos à mistura, saímos do Cine-Teatro, arrumámos o material no autocarro, e aguardámos a chegada dos elementos da Direcção que, entretanto, tinham sido levados à esquadra para serem identificados.

Com a chegada deles e da Mena Delgado, soubemos que só com a intervenção do Reitor da Universidade, contactado telefonicamente pelo Comandante da Polícia cerca da meia-noite, e que se responsabilizou pessoalmente por todos os elementos

do organismo, tinha sido autorizada a sua libertação e regresso a Coimbra.

Ponderou-se, então, regressar de imediato a Coimbra sem a habitual refeição que nos estava preparada num restaurante próximo, como protesto pela actuação policial verificada.

Por insistência de elementos da Organização, acabámos por nos dirigir para o citado restaurante, dentro do qual, para nosso espanto, se encontravam alguns polícias.

Foi o entornar definitivo do caldo, já de si demasiado azedo! Até aqui? Perguntavam todos. E um choro incontido, de revolta e de mágoa, apoderou-se de muitos de nós, alimentando definitivamente a vontade de abandonar aquele local sinistro.

Interpretando e dando voz ao sentir de todos os sócios, o saudoso Rui Jorge, então Presidente da Direcção, pediu de imediato a palavra e, dirigindo-se a todos os presentes, de voz embargada pelas lágrimas, informou que não estavam reunidas condições para nos mantermos por mais tempo naquele local, pelo que iríamos todos sair ordeiramente e regressar a Coimbra.

Todos os presentes - incluíndo o próprio Comandante da Polícia manifestaram espanto pela atitude tomada, que diziam não compreender (então agora que estava tudo serenado!...), e vieram calmamente acompanhar-nos até ao autocarro.

No dia seguinte, como se lê no recorte do jornal, a imprensa informava que o espectáculo fora interrompido por intervenção policial "porque passavam dez minutos da hora autorizada para o terminus do espectáculo".

Tempos memoráveis!

(Luís Pais Borges)

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