Um dia a Celeste telefonou-me!
A conversa simples e natural de quem nunca se viu afastada geográfica e emocionalmente de Coimbra, pelo menos por muito tempo, provocou em mim, ao invés, uma montanha de múltiplas emoções e um regresso quase imediato e lúcido ao início dos anos setenta, período responsável pela minha formação, essencialmente, como pessoa.
Viver de novo o GEFAC, como a Celeste pediu, quando o GEFAC representou o suporte, a âncora da minha vivência estudantil e também o bálsamo para os conflitos existenciais próprios de quem foi sujeito e objecto da revolução das mentalidades desencadeada pela dinâmica que caracterizou os anos sessenta, é inevitável o ressurgimento de uma terrível onda de nostalgia e de um desejo quase incontrolável de me manter aí, longe no tempo, experimentando as mesmas sensações, até as físicas, o esgotamento de quem chega aos Paços da Academia ao romper do dia depois de um espectáculo nessas terras do interior, por onde Cristo se esqueceu de passar, mas com o contentamento de ter contribuído para divertir e animar as almas daquelas gentes com a irreverência incontida e a sã irresponsabilidade dos estudantes de Coimbra. .
Viver o GEF AC, de novo, por quem há tanto tempo se refugiou no quotidiano da grande Cidade, recusando, por necessária estratégia, manter activo e actual parte do universo espiritual construído nessa época, é paradoxalmente perturbador pelas reacções que se manifestam.
Aceitei, mesmo assim, escrever um breve apontamento e disso não prescindo.
Peço a quem me lê que navegue comigo no tempo à procura de um recôndito País, fechado em si mesmo, subjugado por um regime autoritário e repressivo, culturalmente esmagado e vilipendiado, por forma a garantir a necessária sustentação do Ditador.
É neste País de gente simples e humilde mas que já não suportava mais o isolamento e a teimosia anacrónica do conservadorismo ditatorial, que surge o GEFAC que, como outros organismos autónomos, o TEUC, o CIT AC ou a TUNA, quebrava as correntes da censura e levava a voz da liberdade e da democracia, em linguagem codificada e metafórica, aos ouvidos ansiosos e sôfregos
de ânimo para, silenciosamente ou não, prosseguirem a sua longa luta contra o fascismo.
Chegaram os estudantes de Coimbra !!
A alegria, o júbilo era enorme, sobretudo nessas terras pequenas onde não havia um Teatro, nenhum espaço próprio para manifestações de carácter artístico e cultural. Mas logo se improvisava um palco, por vezes nas Juntas de Freguesia e eram os próprios assistentes que levavam de suas casas as cadeiras que faltavam e nós estudantes, recebidos com banda de música e lançamento de foguetes, não sabíamos que, privilegiadamente, vivíamos momentos ímpares e irrepetíveis.
E é numas dessas terras, aparentemente, pacatas , desse País ligeiramente configurado nas linhas anteriores, e num desses palcos improvisados com um pano de fundo a fazer de parede, que relato um episódio que nunca esqueço.
Actuava o Minho. O palco enchia-se de beleza pelo colorido dos trajes típicos daquela região, vestidos por raparigas e rapazes cheios de vivacidade e muito bem ensaiados pelo Pintão ( olha a linha ! olha a linha ! ) e inundava-se com o som forte dos tambores, dos cavaquinhos e do acordeão do Normando.
Vejo-me com o meu fato verde, eu vestia sempre o fato verde, que acarinhava, tratava e guardava como se fosse uma pedra preciosa. Através dele, projectava para a superfície das emoções a minha natural inclinação para a dança. E eu rodopiava e todos rodopiavam naquele palco que ameaçava desabar com o bater das chinelas para marcar os compassos.
A dada altura, a dança que se seguia era executada, apenas, por quatro ou seis pares, não me recordo exactamente, e os elementos que não integravam essa coreografia descansavam ao fundo do palco, aguardando a sua vez nas subsequentes representações.
Aos últimos acordes dessa execução limitada aos tais quatro ou seis pares, já os restantes se preparavam para retomar a sua posição no palco. A roda estava, supostamente, completa. Os dançarinos em pose, com os braços elevados e ligeiramente curvados, aguardavam o som da tocata.
De repente, saltou a voz furiosa do Rui Pinto Ferreira «onde é que aquela gaja se meteu ?! onde se meteu aquela gaja ?! ».
É verdade! O Rui estava sozinho no palco, sem par. O seu par tinha desaparecido misteriosamente, como que por um passe de mágica. Ninguém percebia como nem porquê e gerou-se a confusão. E a Isabel não aparecia! Meu Deus, que fazer? A solução foi o Rui bater em retirada, mais uma vez, para o fundo do palco até aquele pano escuro que teimava em parecer parede. E por detrás do palco, no chão, de onde ecoava uma trovoada de gargalhadas, estava a Isabel Lemos! Desajeitadamente, entendeu encontrar suporte e descanso na tal cortina escura que teimava em parecer parede, e caiu.
Depois, a Isabel levantou-se e depois, ainda, todos levantamos arraiais para partir e...voltar a outras
paragens.
E um dia o GEFAC foi em digressão para muito longe, imaginem, para o sul do País! Muitos de nós,
ainda, não conheciam o Algarve! Era o meu caso. Nesse tempo os passeios e as viagens limitavam-se ao regresso a casa depois dos exames e só as famílias mais abastadas proporcionavam férias aos filhos.
É indescritível o que representou para todos nós essa viagem de três ou quatro dias, transbordantes de episódios de uma comicidade extrema que serão, certamente, engenhosamente relatados pelos seus principais protagonistas. Deixo, então, para eles esses dias gloriosos.
Detenho-me, no entanto, na viagem de regresso a Coimbra, com paragem em Alcobaça para o derradeiro espectáculo A exaustão era total. Ninguém tinha dormido.
A sofreguidão pelo aproveitamento de todos os minutos de todos aqueles dias ímpares, afastava-nos do recolhimento solitário e atirava-nos para situações geradas pela ingenuidade e imaginação que o ambiente fertilizava.
Em Alcobaça, todos, já, vencidos pelo cansaço, tínhamos que, apesar disso, cumprir a nossa missão - cantar, dançar e representar.
A assistência era compacta. Era dia de romaria em Alcobaça. E nós, arrastados até aquele palco, ao ar livre, como quem vem de uma longa e tormentosa caminhada, tentávamos, impacientemente, distinguir o som da nossa tocata do inferno dos altifalantes que, por toda a parte, chamavam a atenção para os seus recintos.
Só por instinto foi possível a exibição.
E eu, aflita, gritava ao Carlos, ao Carlos Bastos, « Carlos tás mal!! Tás a rodar ao contrário!! ». E o Carlos, em tom prazenteiro e despreocupado, respondia-me «Deixa lá, assim é que eu dou nas vistas!!» . Nunca mais acertou o passo nem rodou como os outros.
E com este « Deixa lá , assim é que eu dou nas vistas », em homenagem ao meu par no GEFAC, que nunca mais vi mas espero se encontre bem, termino o meu modesto testemunho.
Um forte abraço.
Lena Remelhe
sábado, 27 de junho de 2009
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