sábado, 27 de junho de 2009

Por ISABEL LEMOS

Alguns olhares, outros ecos

Olha a linha!

Grita o Pintão

desesperado

com certa razão...

Cerrando

Saltando

Picando

"Sigà rusga,

"Sigà rusga"

Lá íamos batendo

O bico, bico, chão

Ecos da minha passagem pelo G.E.F.A C. ( breve demais para meu gosto) mas que marcou o resto da minha vida. São sons e imagens: rostos, cenários e rituais, soltos e desarrumados que surgem em catadupa . O grito um pouco tonto: "GEFAC, GEFAC, GEFAC, aliás!, aliás!, aliás!; a cantiga brejeira. “Namorei uma sopeira... “; o

Monteverde batendo com o abano no cântaro até ao dia em que o abano voou sobre a assistência e o contraponto com as "pinhas" passou a ser um tímido tic-tic do pau de suporte a bater no barro... ; eu a desaparecer misteriosamente de cima de um qualquer palco, naufragando no pano de fundo daquele que me conduziu inexoravelmente para baixo do palco enquanto o Rui Pinto Ferreira vociferava incrédulo por ter perdido o par; as inúmeras discussões do carrega, descarrega a camioneta, aquando das saídas, as histórias de veracidade muito duvidosa que introduziam as danças da Nazaré: "Não vás ao mar, Toino! Tá mar ruim, Toino!"; a voz profunda do Luís Pais Borges a dizer aquele magnífico texto de José Cardoso Pires ao som da guitarra de Carlos Paredes; o Fernando Luís a cantar emocionado e comovendo até ao fundo toda a plateia suspensa do Gil Vicente mas... com as letras das cantigas do Zeca pregadas nas costas do Rui Pato que o acompanhava magnificamente com a sua viola...

Foi assim que, entre os gritos desesperados do Pintão, dos sorrisos abertos ou coxos do João, do acordeão do Normando ou do Rui, a menina do Porto, envolta em algodão corde-rosa e doce, fez a descoberta da resistência, da coragem, da solidariedade e da criatividade e fez-se mulher que tenta viver a cidadania com coragem, verticalidade e apesar de ventos adversos ainda com esperança no futuro.

Maria Isabel Lemos ( 1970- 1972)

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