Testemunhos - GEFAC
Em 1966, procurando na Associação Académica um organismo vocacionado para as danças regionais, alguém nos indicou, a Fernanda e a mim, a Tuna.
Tinha existido o GUDR e havia intenção de criar um grupo de danças regionais ligado à Tuna, segundo nos disseram no corredor da Associação.
Fomos à Tuna, onde encontrámos o Matos Pereira, a quem nos inscrevemos. Disse até que éramos as primeiras a fazer inscrição. Estava também presente o Luís Plácido.
Começaram os ensaios com o Pintão ( que tinha sido do GUDR) e as danças eram só da região do Minho. Os fatos foram pedidos ao coro misto que também tivera danças regionais ou onde estavam(??) os fatos do GUDR(??)
O primeiro espectáculo foi na Faculdade de Letras para o Curso de estrangeiros, só com Minho e depois em Novembro participamos no espectáculo da Tomada da Bastilha, 25 de Novembro. Para além da nossa participação, esse espectáculo contou com a participação de Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso.
Penso que nesse ano já fomos a Arazede, por intermédio do Rui Jorge a uma Associa- ção que ainda hoje existe, e à qual ficámos fiéis pois era sempre aí o espectáculo de estreia do ano ( e onde éramos muito acarinhados com belo bacalhau e feijoada)
Para ensaiar a Nazaré, veio entretanto uma Alcina (não sei se era da Guarda e parece-me que já estava a trabalhar), o Zé Miranda veio ensaiar a Beira. Veio ainda o Manuel Leão e a Zaida. Constituíram-se assim três grupos: Minho, Nazaré e Beira. Este último, dançado por elementos dos outros dois. Pontualmente o Álvaro Laborinho Lúcio, então a frequentar o 5º ano de Direito (?), carreira de magistrados, ensaiava a Nazaré (terra da sua naturalidade). É ele também o autor de um pequeno livro sobre a Nazaré que deve existir no GEFAC.
Enquanto as raparigas se dividiam entre as várias regiões, os rapazes dançavam quase tudo porque eram poucos (direi mesmo à justa).
Na tocata o instrumento, quase único, era o acordeão um cavaquinho, ferrinhos, pouco mais. Quanto à cantadeira do Minho, a estridência da voz da Fernanda encheu o Teatro Avenida, lembrando mesmo a voz “esganiçada do Minho”.
Houve algumas perturbações no início, fruto de divergências de quem tinha apadrinhado a existência do grupo - supostamente de danças regionais da Tuna. Houve divergências entre ser-se uma secção da Tuna ou ao contrário, um organismo autónomo. Venceu esta proposta, numa Assembleia Geral muito participada e cheia de tenções.
Foram aprovados estatutos, solicitada a autonomia à Reitoria, mas dadas as característi-
cas do grupo, de cultura popular, de valorização do património folclórico português, acompanhado de denúncia da situação desse mesmo povo, era considerado um organis- mo perigoso para o regime pelo que era desaconselhada autonomia. Esta daria um pouco mais de poder económico ao grupo e consequente possibilidade de desenvolver mais a sua actividade. Assim, até 1971 (ano em que saí do Gefac) o organismo viveu com um subsídio da Reitoria, no montante de cinco mil escudos, hoje vinte e cinco euros.
Foram muitas as vivências dos que passámos pelo Gefac, ensaios, viagens, espectácu-
los, momentos de luta política. A Academia lutava contra um inimigo comum – o fascismo. Alguns organismos tinham a protecção do regime. Quando nós tínhamos só os magros cinco mil escudos, o Orfeão para além do subsídio de organismo autónomo, chegou a ter, vindos directamente do Ministro da Educação, através de (?)Viana, cem mil escudos. Isto sem falar na OTEC, a meu ver criada para servir o regime (disso falaremos mais adiante).
Cada vez que alguém se estreava num espectáculo fazia-se um baptismo as raparigas tinham um padrinho e os rapazes uma madrinha. Em Arazede ter-se-ão verificado o maior número de baptismos da época, já que era quase sempre aí o espectáculo de estreia. Foi em Arazede que no ano em que o Zé Tó ( José António Fraga Carneiro) se recusou a ser baptizado, arranjou uma discussão enorme no ambiente, mas acabou por aceder e lá se ultrapassou o problema. Acusava a atitude de reaccionária...
Nas deslocações a Arazede a comida era sempre em abundância e lembro-me do grupo de fados que nos acompanhava, muitas vezes, ser um grupo de Cabo Verde ( Nito Bárrio Vieira e outros) que normalmente comia a feijoada em enormes alguidares de plástico. Eram rapazes de grande sustento, embora de baixa estatura. Havia ainda outro grupo de fados ( Paulinho e Custódio), destes lembro-me que o Custódio tinha sempre um frasco debaixo da capa com aguardente e mel para ir molhando a garganta para cantar melhor...
Inicialmente os espectáculos tinham as danças regionais, e terminava com fados de Coimbra. Além dos elementos do Gefac, para os espectáculos ia sempre o grupo de fados e os técnicos de luz. Destes, lembro-me do José Maria Cirne, do Manuel Soares Pereira e do Asdrúbal Frias. Normalmente estes técnicos eram do TEUC.
Na montagem todos ajudavam (claro, uns mais que outros...), bem como no carregar a camioneta.
As viagens eram sempre muito alegres e divertidas, cheias de cantoria, anedotas, foto-
grafias. Na viagem ao Algarve o Rui de Sousa foi toda, mesmo toda a viagem a contar anedotas. Foi impressionante a resistência daquele rapaz. Nunca parou de falar.
As fotografias dessa viagem foram – os homens sem bigode; os homens com bigode; as raparigas; tudo servia para fazer comédia. Éramos novos e divertidos! Nessa mesma viagem o Rui Pato teve uma trabalheira a ensinar a Samaritana ao Fernando Luis Marinho para ele cantar no espectáculo do Hotel Balaia e Vasco da Gama..
Passou muita gente pelo Gefac. No início do ano lectivo havia muitas inscrições mas depois os que eram apurados eram poucos pois havia muita falta de jeitinho,
principalmente no sector masculino. O mês de Outubro era repleto de “chão bico, bico chão”, base dos passos de dança.
Lembro-me de um Salema que se inscreveu e que teve que ser expulso pois a dança não era o mais importante para ele. Uma Dolores, muito loura e de cabelo muitíssimo comprido que era muito dinâmica e que dizia regularmente “ Todo o mundo atráis”(com o seu sotaque de português do Brasil). O Joãozito que nos intervalos dinamizava a dança do tango com a Elizabete e todos os outros.
Os ensaios de tocata e do coral, eram por vezes penosos, pois o Normando era muito exigente e não admitia brincadeiras. Claro que quanto mais ele se arreliava mais o pessoal ria. Às vezes acabava tudo zangado com as teimosias de alguns. A música que causava mais problemas era “O corridinho, esta moda singular...” principalmente na parte “...e nós os homens barbados, valha a verdade...” “...plim...plim...”
Um dia, no fim de um espectáculo, fomos todos para a Associação e fui muito gozada porque todos contaram histórias de bebedeiras e eu nunca tinha apanhado nenhuma. O Manuel Leão ria a bandeiras despregadas e não paravam de dizer “nunca apanhou nenhuma bebedeira! Nunca apanhou nenhuma bebedeira!” e ria, ria, ria...Foi assim até nos ir levar a casa no seu wolkswagen 1300, atravessando passeios com o carro...
Demos um espectáculo na Mealhada e fomos recebidos pelo verdadeiro Messias de barbas enormes. A Montemor-o-Velho fomos por influência da Elizabete. Eram poucos os espectáculos que tínhamos e os que arranjávamos eram porque alguém do grupo dava um “toque”. Também fomos a Abrantes, em tempo de Carnaval e depois do espectáculo fomos para a Assembleia local para um baile. A Fernanda, o Joãozito, o João Correia e eu ficámos lá e apanhámos o comboio no dia seguinte para Castelo Branco, Vila Nova de Foz Côa e Portalegre, respectivamente.
O espectáculo de Abrantes tinha uma personagem que era o Sr. Folclore que não entrou no momento que devia no palco ( não sei porquê) e então era ver o Carlos Faria muito aflito no palco, gritando: Ó Normando ! Onde é que está o senhor Folclore?? Ó Senhor Folclore! Como se isto não bastasse, o trio Zaida, Elizabete e Teresa Boliqueime foram cantar o “Viene su la Barqueta” e só riram todo o tempo. A Zaida chorava de tanto rir. O que é certo é que não conseguiram cantar nada. Mas riram bem! Os comentários dos espectadores no final: “ Só foi pena aquelas meninas... cantavam tão bem ...mas só riam...só riam...”. Este espectáculo tinha uma cena um tanto disparatada de “vasos co-
municantes” um dos que entrava nisso era o Carlos (Carlos Manuel Bastos Pacheco de Barcelos, de medicina) eram três, já nem sei quem eram os outros – um bebia, outro arrotava, outro...
Creio que para podermos ter acesso ao material para o espectáculo de Castelo Branco, tivemos que ir à Polícia pedir para entrar na Associação Académica (estava selada, por causa da crise), alguns estavam em liberdade condicional…
Foi um espectáculo um tanto conturbado. Para além das danças, tinha dois quadros encenados que tinham todos os ingredientes para pôr o Comissário da polícia nervoso.
Uma encenação tinha a ver com António Aleixo, onde cinco estavam no palco dizendo quadras escolhidas de “Este Livro que vos Deixo”. Duas raparigas vestidas de vermelho (Romy e eu) e três rapazes vestidos de preto (Rui Jorge, Fernando Monteiro e Tadeu) as quadras eram de grande crítica social, o público compreendia e reagia positivamente.
Outra adaptação teatral de “O Exame do meu Menino”, onde um cábula dizia as suas piadas e onde foi introduzida uma avó surda (eu ) que à custa da surdez, ia dizendo coisas que julgava ouvir e que tinham segundo sentido (piada política)... nos camarins o espectáculo recebeu ordens de não continuar. Razões?? O adiantado da hora...
Fomos ao palco com ar muito contristado e de capas caídas em sinal de luto dissemos que tínhamos sido impedidos de continuar o espectáculo pelo senhor comissário da polícia, por ser muito tarde. Reacção da plateia “ A Laura Alves costuma estar cá até mais tarde e nunca foi impedida de continuar o espectáculo!!!! ”
Tínhamos a camioneta cheia de comunicados pois tinha havido problemas com um espectáculo da OTEC (até as pedras da calçada tinham sido arrancadas na Praça da República, para apedrejar gente que foi ao teatro). A Academia estava de luto. O Rocha pôs-se à porta do cinema a distribuir comunicados e de imediato foi levado para a polícia para identificação. A Mena Delgado ( em liberdade condicional) escondeu os comunicados debaixo da capa e perante alguém que lhe sussurra: “tem aí um comunicado?” Ela, de imediato lho dá. Ele de imediato lhe diz para o acompanhar. Era um PIDE.
A situação agravou-se o Comissário exigiu a identificação de todos, a Direcção entrou em negociações e enquanto isso aconteceu, fomos impedidos de ter acesso à camioneta.
A Helena David conseguiu forçar um vidro e entrar na camioneta e retirar os comunica-dos. Parte deles foram levados no carro da irmã da Fernanda e a maior parte foi por nós distribuída em montinhos, por Castelo Branco.
Depois dos nervosismos e conversa do comissário que repetia para o Rui Jorge, então presidente da Direcção “o senhor Dr. desculpe... eu próprio estou a ser mandado! O senhor Dr. desculpe, eu próprio sou mandado pelo senhor governador civil”. Fez questão que fossemos para a sala onde estava servida a ceia. A fome já era muita. O Rui na sala, perante a mesa e com o seu ar disse: “Malta, acho que o que aqui se passou é inadmissível e como sinal de protesto peço que ninguém toque em comida nenhuma e vamos embora”. Dito isto, desmaiou.
O comissário da polícia: “ó senhor Dr. não faça isso!! E repetia, repetia. Houve quem
conseguisse à socapa roubar uns pãezinhos. A esvoaçar em Castelo Branco ficaram comunicados à solta e nós ao sair da cidade tivemos um furo.
Funcionou como fase de viragem e divulgação para o Gefac a deslocação ao Algarve com passagem pela televisão, canal 13, e Alcobaça.
Já referi alguns breves apontamentos da viagem, muito longa, com algumas contrariedades pois o Fernando Monteiro teimou que não se parava pelo caminho, a não ser para almoçar, e foi um tanto exagerado no cumprimento desse compromisso.
Também o Fernando esteve na base de uma decisão mais dura relativa ao Rui Curto tocar ou não no espectáculo por ter faltado a ensaios. Eu pessoalmente considerava que se deveria ter deixado o Rui participar na tocata e o Fernando estava irredutível! Já não me lembro se tocou ou não.
Esta viagem foi promovida pela Teresa Morgadinho que era amiga do dono do Hotel Vasco da Gama. Ao chegarmos ao Hotel Balaia tivemos que nos deslocar ainda alguns quilómetros até Alcantarilha, um colégio onde ficámos em camaratas.
Durante o jantar, no Hotel Balaia, com a sala cheia de turistas, ambiente requintado, coktail inicial, perante o qual o Monteverde perguntava “isto é para comer ou para beber?” Entre muitas tropelias, risos, o Monteverde até a célebre missa negra rezou, perante a estupefacção de todos. Consequência de tais actos, a partir daí, fomos recambiados para uma sala de jantar no sótão do Hotel.
Durante a noite, camarata de rapazes, camarata de raparigas, a Regina (cantava tão bem! Lembram-se?) lembrou-se, talvez por estarmos num colégio de freiras, de simular um hábito de freira com a ajuda de um lençol e a capa. Bem disfarçada e com um ar muito sério irrompe pela camarata dos rapazes a repreendê-los por causa do barulho e eles apanharam um grande susto, pois alguns estariam despidos e acreditaram tratar-se de uma freira. Penso que houve quem se enfiasse debaixo da cama.
Ainda nesta viagem houve alguns incidentes relacionados com as relações da Academia com o Ministro da Educação que então já era o Veiga Simão, pois queriam que fossemos à discoteca actuar para o Ministro e nós recusámo-nos, o que criou algum mau estar ao gerente do Hotel.
Demos espectáculo no Hotel Balaia e no Hotel Vasco da Gama essencialmente para estrangeiros. Um dos espectáculos foi numa piscina, num estrado que baloiçava muito e era pequeno. Fomos muito aplaudidos e a Elvira a rodopiar Nazaré sem cullotes. Até chorou por causa disso! Outros tempos!
Na sequência do Zip Zip outros programas do género foram acontecendo na televisão. Um deles foi o Canal 13 que tinha como apresentadora Ana Maria Lucas que tinha sido Miss Portugal e era modelo. Era um programa gravado no Parque Mayer, creio que no ABC. Fomos, no regresso do Algarve ao Canal 13. Preparámos primeiro a entrevista com a Ana Maria Lucas (de rolos na cabeça), o Luís Pais Borges e eu.
No espectáculo actuámos a seguir à Anita Guerreiro que cantou “Cheira bem, cheira a Lisboa”. O Luís também foi maquilhado e até andou todo o dia com aquele empoamento na cara. Á noite fomos a um bar onde estava a cantar a Luisa Bastos e entrámos também em cena abrilhantando a noite.
Dias mais tarde fomos a casa do Manuel Leão visualisar o programa, numa sala que tinha um grande aquário e alcatifa. Foi divertido ver a entrevista e sobretudo ver a câmara passar da cara do Luís para o lado e ficar o écran vazio, a câmara teve que descer até encontrar o meu rosto. (tecnicamente as coisas ainda eram fracas…)
No fim da digressão ao Algarve, com passagem pela televisão, lembro-me que vários de nós se despediam do Gefac. Tenho muito presentes as palavras do Rui Pato, dizendo que muitos de nós pelas características dos projectos de vida que íamos ter, seria fácil reviver ou pôr em prática, actividades afins ao Gefac, coisa que não iria acontecer com ele.
Lembro-me duma ida a Paião em que nos fartámos de roubar laranjas e depois acabou por vir a dona do laranjal, dar autorização para comermos as laranjas.
Sob proposta de José Orlando e aprovada em Assembleia Geral, iniciaram-se investigações etnográficas, para sustentarem a autenticidade de representações, marcações de danças, genuinidade das actividades.
Foi assim que se realizou a primeira deslocação a Lisboa para falar com Jorge Dias e Michel Giacometti, ao museu do Ultramar (??), na Rua Jau. Pretendeu-se com este encontro, recolher algumas regras básicas de investigação etnográfica. A deslocação em BMW do Aires Aguilar, recém chegado do cumprimento do serviço militar, entu-
siasta de fotografia, sobretudo a preto e branco e cuja entrada no Gefac foi também útil nesta área porque “os tesos” nem máquina fotográfica tinham. Foi uma viagem muito proveitosa. Creio que foram a Fernanda, Aires Aguilar (suspeito que a fazer-se ao piso à Fernanda), Fernando Monteiro, eu e José Orlando (??). Foram-nos transmitidos saberes, a que particularmente a Fernanda e eu fomos sensíveis, pela formação na área da investigação linguística. O relato das experiências de investigação em África e no Brasil, foram de grande utilidade nas investigações futuras, nomeadamente na zona demarcada do Douro. Aprendemos aí que, na época, a tasca era o melhor lugar para estabelecer as empatias necessárias à investigação.
Apetrechados desses conhecimentos, regressámos, não sem apanhar na estrada um acidente brutal, com quatro mortos espalhados na estrada, o que determinou uma paragem obrigatória para acalmar e ainda uma condução até Coimbra, muito mais tranquila, sem velocidades excessivas.
Uma vez decididas as zonas a investigar, de acordo com o interesse e as possibilidades de apoio para não haver problemas económicos, resolvemos ir para a zona demarcada do Douro, uma vez que o sistema de rogas do Douro, estava a perder-se. Estabelecidos os contactos e propostas à Vice- Reitora, então Dra. Maria Helena da Rocha Pereira, conseguimos um subsídio para efectuar essa pesquisa. Como o mesmo era insuficiente e íamos para a zona d vinho do Porto, conseguimos ainda a colaboração do Instituto do Vinho do Porto, que nos cedeu um carro sem motorista, “um Carocha” (guiado pelo Orlando ou pelo Fernando Monteiro) e nos pagou o alojamento no Pinhão, em residencial, junto à estação, por onde passavam aquelas máquinas negras a carvão com rolos de fumo e apitos que conhecíamos da obra de Eça de Queirós.
Valia-nos a prova constante de Vinho do Porto nas quintas!! Nunca comemos tanto morango, invariavelmente a sobremesa ao jantar. Havia tantos morangos como baratas a passear, impunemente, durante a noite nos quartos e corredores. Para ir à casa de banho, lembro-me que era “...pé aqui...pé acolá... pé aqui... pé acolá...”
As boas vindas tivemo-las na Casa do Douro onde fomos principescamente recebidos, com boa comida e melhor bebida. Tivemos uma verdadeira lição de vinho do Porto, vinhas desvastadas pela filoxera, vinha em socalco, porquê da redra, envelhecimento de vinho, vintage, copo em tulipa... A teoria estava consolidada, havia agora que calcorrear trancos e barrancos, quintas e quintinhas, tascas e tasquinhas, fotografar alfaias agríco- las, conversar com o povo genuíno. Foi isso que fizemos e tão bem o fizemos que a Fernanda que não gostava de vinho do Porto veio de lá a gostar. Às nove horas (manhã) começava o dia em digressão pelas quintas e a explicação era acompanhada por um copo e amêndoas à boleia. Não podemos esquecer a forma simpática como fomos recebidos na quinta de S. Luis, sobranceira à Régua, a quinta da Vesúvia ( que comercializa o vinho Ferreirinha), a quinta do Noval, verdadeiro postal do Douro e que produz vinho essencialmente para exportação, a quinta das caves Sandeman, cuja adega era a mais moderna (com dezassete cubas de fermentação cuja trasfega do vinho era controlada por um verdadeiro “cocpit” de um avião, economizando assim mão de obra) e propriedade de um inglês de trinta e cinco anos “solteirinho da silva”... Nota dissonante em toda esta digressão, a quinta da Real Companhia Velha que sustentava num dos seus morros uma verdadeira pousada envidraçada que recebia regularmente o então Presidente da República e seus “acólitos” . Foi a nossa persistência provocatória e curiosa que nos abriu uma “nesga” da porta e ficámos a saber que eles foram os tais inovadores do vintage e que cada ano que nascia um filho enchiam um tonel com o seu nome.
A propósito de tonel ficámos formados em aduelas, envelhecimento e tratamento dos cascos, madeira aconselhada, tanoeiros, ferramentas de tanoaria, poceiros... um nunca acabar de vivências formadoras e consciencializadoras de como o mundo rural era pequenino e sem consciência do tamanho do mundo. Só assim se compreendia que numa aldeia chamada Adorigo, um monte sobre o Pinhão, na tasca ao saber-se que éramos de Coimbra, uma inocente mulher tenha dito: “ Conhecem lá a Gracinda?”
Eu, muito séria disse que sim, mas que há já algum tempo não a via. Eram tascas onde o vinho do Porto era vinho corrente (não sei se a martelo).
A experiência foi tão positiva que fomos reincidentes e lá partimos para o Alentejo. Mais propriamente para o distrito de Portalegre. Aí tivemos a colaboração dos Serviços Florestais e era num Geep desses serviços e com um condutor que nos deslocávamos às várias localidades. Percorremos Castelo de Vide, usos e costumes, Marvão, aí encontrámos um verdadeiro etnólogo funcionário da Câmara, que cultivava o saber de todas as tradições locais, quer ao nível da música, dança, lendas, usos e costumes, utensílios... lembro-me a graça com que contava a lenda da origem do nome do rio Sever, zona onde actualmente o célebre Melancia tem um complexo turístico de golfe... Sever tem origem no séquito que acompanhava a futura mulher de D. Pedro I, Inês era uma das acompanhantes da princesa... ao passarem por ali, cansadas da viagem ficaram contentes porque havia ali um rio para “se ver” (espelho)... Costumes de ceifas de ganhões, lendas referentes ao Convento fora de muralhas em Marvão... aquele homem era um manancial de informação...
Deslocámo-nos a Niza e dada a riqueza e variedade de aspectos a explorar assim como alojamento gratuito, resolvemos ficar em Niza, instalados em casa do Dr. Curado Banha, professor de inglês, cego, pai de uma nossa amiga da Fernanda e minha. Casa antiga com quintal, onde inicialmente acamparam os rapazes (Fernando, Zé Tó, Lima, João Correia, Orlando (?? ) as raparigas (Fernanda, Mena Delgado, eu) na casa. Aqui havia todo um rol de músicas antigas que acompanhadas ao piano, pela nossa amiga ou pelo Fernando, tornavam os serões bem divertidos e animados. Para além disso, a cultura das pessoas que nos acolheram e o seu património deram “pano para mangas” para a nossa investigação. Duvido que em “alinhavados de Niza” pudéssemos arranjar mais informação e modelos do que o que saiu daqueles baús duma família tradicional.
Visitámos oleiros, pusemos pedrinhas em cantarinhas de Niza, aprendemos cantares e nessas digressões fomos convidados para um casamento à moda tradicional de Niza, isto é, oito dias de casamento em casa do noivo e outros oito em casa da noiva.
À noite, os descantes, cantares à porta dos noivos para não os deixar dormir e virem receber os cantadores e cantadeiras. Enfim, uma paródia!
No meio de tanta etnografia, não podia faltar as crendices nos fantasmas e havia uma casa assombrada em Niza, onde aparecia o Pancas, fantasma… Estas narrativas povoaram muitos dos serões e levou-nos à descoberta de que o Fernando se impressionava com os fantasmas e tinha medo de aranhas! Então é que foi!
Partidas atrás de partidas…
Maria Celeste Garção Nunes
2003
São muitas as memórias, são muitas as saudades, dos que nunca mais vi e daqueles que tão cedo nos deixaram, aqui com particular homenagem ao RUI JORGE e à ZAIDA…
Abril de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
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2 comentários:
Celeste,
Há momentos em que uma pessoa não se pode esquivar a uma emoção ou a uma lágrima furtiva.. Foi o que aconteceu quando encontrei, por acaso, este blogue, com a descrição, exacta, de alguns dos momentos que, juntos, passamos, no Gefac. Gostava de estar contigo, mas não sei como. pelos momentos que me proporcionaste, um beijo enorme do sempre amigo,
Fernando Monteiro Costa
Fernando
Por acaso hoje resolvi vir dar uma espreitadela e fiquei contente por te reencontrar através das tuas palavras. Nunca conseguimos encontrar-te nas nossas diligências para actualização de dados/endereços do GEFAC. Espero que contactes o organismo para te ver no próximo aniversário. Pertences ao gupo dos faltosos e lembramos-te sempre. A última vez que soube de ti foi através da TV (no grupo da Alexandra Solnado) Deixa o teu contacto ou procura no facebook Maria Garção...
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