Caro Gefaquiano…
…era este o início de uma carta (antigos gefaquianos e direcção do GEFAC de então) que em 2003 seguiu para muitos (os possíveis, os de rasto conhecido, de endereço encontrado…) para se tentar iniciar a história do GEFAC, através de testemunhos, memórias…antes de muitas se apagarem.
Pretendia-se uma publicação com uma primeira parte da responsabilidade de uma “comissão de históricos” em que ficasse registado, com rigor, o Historial do GEFAC.
A segunda parte consistiria em depoimentos, acontecimentos vivenciados e relatados na primeira pessoa, curiosidades, factos a ficarem registados na história, episódios anedóticos, pequenos estudos e ensaios, fotografias, recordações de amores e desamores, saudades….Esta parte, assinada pelos próprios constituiria o nosso Penedo da Saudade, ou Penedo da Meditação…enfim o lugar onde se juntassem todos os afectos de todas as gerações…
Já perdemos memórias importantes (Tadeu, Rui Jorge, Zaida…)
Foram poucos os que responderam à chamada, à época, embora achando a ideia “gira”…
Desses…reza a história e esses testemunhos vão dar o pontapé de saída neste blog, criando-se assim um suporte talvez mais motivador de memórias e vontades.
CONTRIBUTO PARA AS HISTÓRIAS DO GEFAC
1963-2003
por j.rnatos. pereira@netcabpt
1- Pré-história do GEFAC – O GUDR
2- Pré-história do GEFAC – as danças da TUNA
3- A saída da Tuna e a fundação do GEFAC
4- O nome, o grupo, a etnografia, o folclore, a academia, Coimbra
5- A legalização e as relações com as autoridades académicas
6- Os corpos gerentes, a logística, os apoios dos organismos
7- Orquestra e bailadores, estudos interlocutores
8- Um excelente substrato humano
9- O GEFAC existe, resiste, persiste e existe
1 - In illo tempore
Quando cheguei a Coimbra, em 1963, já um bocadinho politizado por ter participado numa “secreta pró-associação liceal” e “aspirador” de música clássica, por ter assistido a uns concertozitos, integrei-me rapidamente nos «associativos» e em todas as organizações que tivessem a ver com Mozart, Beethoven, da Tuna à Juventude Musical, etc.
Por um lado, estava disposto a aprender “tudo”, por outro, estava seguro da minha “verdade”.
O «mundo» dividia-se, então, entre «associativos» que eram os de esquerda, os politizados, os esclarecidos, os amantes do espírito, da arte e da cultura e participavam, nem que fosse como espectadores, em tudo o que era «cultural», e os «outros».
Os «outros» espraiavam-se com várias gradações, desde «gajos porreiros», passando por outras categorias indefinidas, até aos da «direita».
Nas divisões simplistas de rótulos mal colados, por volta de 1964, os do Orfeão, os da Tuna, os praxistas, os de várias secções desportivas (futebol, basquetebol, hipismo, esgrima, tiro, aeronáutica) os da Real República do Pagode Chinês e de duas outras Repúblicas eram de direita.
No meio, existia uma vastíssima variedade de espécies amorfas, desde as miúdas dos lares, clubes de namorados e não só, que reuniam em garagens para tocarem e dançarem, aos marrões, aos jogadores de cartas, de lerpa, etc, aos pândegos e beberrões, frequentadores de bailes de faculdades à 4a e ao Sábado, etc, etc,
Os de todas as outras Repúblicas, do TEUC, do CITAC, do Cineclube, das secções culturais, especialmente daquelas que se dedicavam a estudos literários, cinematográficos, filosóficos, etc, eram de «esquerda»
O centro da Agit/Prop associativa, a agitação e propaganda, era o SIPE, Serviço ou Secção de Informação Propaganda e Estatística da AAC e, claro, fui lá parar.
É claro que, passado algum tempo, descobri que a realidade era bem diferente e encontrava-se um pouco de tudo misturado aleatoriamente, havia tipos cultos no Orfeão e na Tuna, podia encontrar-se um apaixonado par de esquerda num baile de faculdade, havia repúblicos beberrões, havia veteranos de esquerda e os órgãos tradicionais da praxe, Conselho de Veteranos e Conselho das Repúblicas sustentando as tradições académicas como bastiões progressistas.
2 – Pré-história do GEFAC – o G.U.D.R.
Em 1963 ainda não havia GEFAC, mas já existia o GUDR.
A minha primeira memória do GUDR, Grupo Universitário de Danças Regionais é a de ver uns “tontinhos universitários” a dançarem e a pularem descalços a tentarem imitar os pescadores da Nazaré, quando entrei, atraído pela música de um acordeão, numa sala de ensaios da Associação Académica, onde procurava um grupo de teatro de «esquerda».
Para um citadino de província que aspirava à grande cultura clássica, os ranchos folclóricos eram aldeões que animavam festas e romarias, mas aqueles saltitões não eram aldeões e as miúdas até dançavam com classe.
Fiquei um bocado a ver, gostei, mas fiquei confuso. Porque é que aquela gente se dedicava àquilo? A minha visão era muito parcial, muito voltada para a música clássica, admitia que universitários se interessassem…por balet, mas por aquilo? Numa análise muito «politizada» tive dúvidas se aquilo era uma actividade cultural…ou desportiva. Usava-se o intelecto, ou gastavam-se energias a pular?
3 – O GEFAC – Uma Instituição
O GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, tem uma origem remota, como convém a todas as instituições. Não podemos dizer que é anterior à Nacionalidade, mas podemos dizer, com propriedade jurídica, que a origem do GEFAC, a do seu substrato sociológico e da sua identidade é anterior à…nacionalidade do GEFAC, que só foi adquirida com a aquisição de personalidade jurídica…depois de 1974.
Outra forma de o nobilitar, (palavra esquisita!), é dizer que a sua origem se perde
no …Povo.
A terceira, é dizer que, até 1974, o GEFAC foi uma organização ilegal e clandestina, mas não exageremos! Fartou-se de fazer espectáculos e morou sempre no edifício da AAC até ao 25 de Abril!
Com este começo, já estamos perante uma verdadeira instituição e já podemos começar a História.
Mas, quando consideramos que o GEFAC é uma instituição, caímos no problema das instituições, o seu percurso percursor é sempre sinuoso e retorcido.
Temos que começar pela pré-história e a pré-história do GEFAC começa com o GUDR, o Grupo Universitário de Danças Regionais, secção cultural da AAC, Associação Académica de Coimbra. Sobre isso, poderão falar melhor os que participaram ainda das duas organizações, o Leão e a Zaida. Eu só posso falar de fora.
O G.U.D.R., Grupo Universitário de Danças Regionais era uma secção cultural da Associação Académica de Coimbra e não estava mal cotada nos meios associativos,
tinha participado activamente na Greve de 62, embora «dançar e pular» não fosse assim uma actividade…muito revolucionária! A vitória da esquerda por poucos votos nas eleições para a Direcção-Geral da AAC de 64/65, a radicalização e a repressão que se seguiu culminaram com o encerramento da AAC e de todas as secções, salvo as desportivas, em 65 e a nomeação pelo Governo de uma Comissão Administrativa para a AAC.
Cultura passou a ser sinónimo de esquerda e desporto de direita (com raras excepções). O GUDR, que era uma secção cultural da AAC, foi extinto e o seu valioso espólio e guarda-roupa ficou armazenado em depósito.
4 –Onde entra a TUNA
Entretanto a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, cujos principais dirigentes de 64/65 alinhavam à direita, tinha uma nova Direcção, tinham saído alguns dos seus elementos mais à direita e entrado alguns mais à esquerda, passando a distanciar-se da direita académica representada, então, apenas pela Comissão Administrativa da AAC e pelo Orfeão. A Direcção da Tuna de eleição recente, durou pouco e as dissenções internas levaram à eleição de uma nova Direcção no começo de 67, a que presidi, e em que o Rui Pato era o Secretário, uma direcção também de composição mista, esquerda/direita mas um pouco mais à esquerda e com várias ideias de renovação que iam desde, a abertura às mulheres, ao reposicionamento político e a outras linhas, nem sempre de fácil compatibilização.
A Tuna era, desde a fundação, exclusivamente masculina. O espectáculo típico tinha uma primeira parte de actuação da Tuna que, por preconceitos culturais, era cada vez mais uma orquestra sinfónica, e que era a linha de orientação do maestro, partilhada também pela generalidade dos membros e pela direcção, e uma segunda parte do espectáculo, muito mais apreciada pelo público, formada pela actuação da Orquestra de Tangos, pelas Variedades e pelo Grupo de Fados e Guitarradas, com alguns membros da Tuna e estrelas convidadas.
Com o apoio declarado do Rui Pato, secretário da Direcção, chefe do naipe das violas, então a autoridade máxima da música coimbrã, acompanhante do Zeca Afonso e encarregado dos cursos em Coimbra da Escola de Guitarra Clássica Duarte Costa, o expoente máximo da guitarra clássica em Portugal, na altura, abriu-se o precedente de admitir uma mulher.
A Tuna lançava também o Conjunto de Câmara Carlos Seixas, reforçando a componente de música séria.
Tinha-se rompido a exclusividade masculina da Tuna com a admissão da Laury, uma suiça de esquerda que frequentava um curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras, apadrinhada pelo Rui Pato. A Tuna tinha falta de violinos, recorrendo desde há muitos anos a dois violinistas, não estudantes, pelo que o maestro viu com muito agrado a entrada para a Tuna e para o Conjunto de Câmara de uma violinista liceal, a Isabel Cristina Pires. Entrou também uma boa acordeonista, a Fernandinha (Brasileira) Mendes, aluna de Medicina e, de uma outra colega de Medicina para as violas.
Havia condições para acabar com o espírito «machista» da Tuna e para a entrada de mais mulheres. As “Variedades” eram uma possível porta de entrada para a modernização.
Constava, entretanto, que a Comissão Administrativa da AAC queria recuperar as danças regionais, consideradas apolíticas e inofensivas e tinha feito abordagens a antigos membros do GUDR que não se tinham mostrado entusiasmados, dada a impopularidade da Comissão Administrativa.
A Direcção da Tuna soube disso e antecipou-se, contactou antigos elementos do GUDR para participarem no espectáculo de variedades, pediu emprestados, ao Reitor, os fatos do Minho e Nazaré do ex-GUDR, que estavam armazenados pela Comissão Administrativa. O Reitor admitiu a hipótese de a Tuna ter Danças Regionais nas Variedades da Tuna e admitiu que era preferível a utilização dos fatos do ex-GUDR pela Tuna, do que conceder um subsídio à Tuna, com essa finalidade, mas obrigou a Direcção da Tuna a pedi-los, por escrito, à dita Comissão Administrativa que os entregou prontamente, esperançada em que a Tuna, engordando o seu substrato sociológico com dançarinos supostamente não politizados, se voltaria a aproximar da direita académica. A Tuna ficou, de repente, com uma secção de danças regionais liderada por ex-membros do GUDR, a Zaida e o Leão e em que boa parte da orquestra era formada por membros da Tuna, o Normando, o Reis, o Frias e outros e a que aderiram entusiasticamente algumas namoradas e, sobretudo, ex-madrinhas da Tuna e damas de honor de Viana do Castelo que entretanto já estavam a estudar em Coimbra. O grupo era entusiástico e animado, cantava e pulava músicas populares e contrastava com um certo cinzentismo de uma tuna de capa e batina sentada em semi-círculo tocando música clássica, ou com um Conjunto de Câmara que se esforçava noutro sentido e perseguia a virtuose.
5 – Pré-história do GEFAC – as danças da TUNA
A primeira tourné demonstrou a dificuldade de conciliar na Tuna as duas realidades, a clássica e a folclórica, a masculina e a feminina, subitamente muito grande.
Até aí, a Tuna viajava num só autocarro de 44 lugares e passou a ter de utilizar dois.
A Tuna só masculina, podia alojar-se em camaratas de tamanho quase limitado. Já não era o mesmo com duas ou três preciosas meninas na Tuna, mas a logística de número de rapazes e raparigas praticamente equivalentes era mais complicada.
Os Estatutos da Tuna não previam secções. Previam naipes, representados num conselho artístico.
Os naipes que existiam eram de violinos, violas, bandolins, bândolas, madeiras, baixos, violoncelos, acordeões e percussão e era-se sócio efectivo por naipes. Numa altura em que o Ministro da Educação não aprovava alterações de Estatutos de Organismos Circum-Escolares e tinha retido uma alteração de Estatutos do TEUC, a Tuna não podia alterar os estatutos, nem haveria fácil consenso sobre o assunto. Um naipe de Minho? Um naipe de Nazaré? De corridinho do Algarve? Como se os bailarinos eram os mesmos? Não era sustentável as danças serem a colónia da Tuna, cujos órgãos detinham todo o poder de decisão sobre espectáculos, etc.
6 – A saída da Tuna e a fundação do GEFAC
O grupo de membros simultaneamente da Tuna e da orquestra das danças, entre eles o Reis, o Normando e alguns elementos da direcção da Tuna, eu próprio, o Rui Pato e o Frias chegámos à conclusão de que era necessário e conveniente lançar e apadrinhar um novo organismo independente, ideia que agradou tanto aos elementos da Tuna que não se sentiam identificados com as danças e que se reforçavam as ideias de uma orquestra sinfónica e de câmara, como aos membros das danças que não podiam ser sócios efectivos e não se sentiam identificados com a Tuna. Com a independência podiam fazer-se espectáculos separados e conjuntos, quando fosse conveniente e resolviam-se problemas logísticos e também de política académica. A Tuna também estava a ser vista por organismos de esquerda e da direita como demasiado expansionista, duplicando o número de membros, invadindo a área das danças regionais, que era um mundo em expansão, e tornando-se mista.
Com ou sem danças, a Tuna já era mista, mas ficava-lhe mal ser expansionista e sobretudo não podia ser «colonialista» tendo uma secção sem direito de voto.
Envolvendo os outros organismos no apoio a um novo organismo desfaziam-se algumas tensões e reforçava-se o bloco de organismos que se opunham à existência da Comissão Administrativa da AAC. Mas como é que se poderia passar para o novo organismo um guarda-roupa de que precisava, mas que estava formalmente emprestado à Tuna pela C.A. da A.A.C? E como é que se podia conseguir a legalização do novo organismo? E como é que se conseguiriam as redistribuições de salas de ensaios e salas administrativas do bloco da AAC de que o GEFAC precisava e que utilizava a pedido da Tuna? A sobrevivência das danças e o regime de transição para um organismo autónomo exigia habilidade e contactos fáceis quer com os outros organismos quer com a Reitoria.
A acção diplomática junto dos outros organismos, designadamente o Coro Misto e o CELUC -Coral das Letras foi fácil. A sugestão de que tinham interesse na existência de um novo organismo de danças regionais independente da Tuna que poderia actuar com qualquer deles quando lhes interessasse enriquecer a segunda parte do espectáculo de um clássico coro de capa e batina, foi bem recebida e o próprio Orfeão vislumbrou a hipótese de a existência de um novo organismo pouco politizado ajudar a quebrar o isolamento a que estava remetido
7 — O registo de nascimento, o nome, o grupo, a etnografia, o folclore, a academia, Coimbra
A decisão de criar um novo organismo foi tomada em muito pouco tempo em vários tabuleiros simultaneamente, na Tuna, no grupo de danças, e na intriga «associativa» pois era necessário o «reconhecimento» e o apoio logístico dos outros organismos, para obstar à eventual e provável oposição da CA da AAC e da Reitoria.
A decisão chave da independência foi tomada pela Direcção da Tuna, não foi uma rejeição, mas foi uma solução do agrado de todas as partes, monitorada e liderada por um núcleo duro comum aos dois organismos.
O registo de nascimento do GEFAC encontra-se nas actas da Direcção da Tuna que aprovou formalmente a independência, como a solução mais adequada e prática.
A decisão de ir para a frente animadamente com um grupo independente teve um grande empenho dos que dançavam e tocavam, dos mais antigos e activos bailadores e dos membros da orquestra, que também eram da Tuna, mas houve um grupo, constituído por mim, pelo Rui Pato e pela Fátima Saraiva, grupo que não dançava nem tocava nas danças e que, na altura, era mais «politizado» e que se ocupou activamente da concepção do projecto, dos estatutos, do nome, da orientação, das medidas administrativas e das muitas acções «diplomáticas» do lançamento do GEFAC.
Ao mesmo tempo que me mantinha como Presidente da Direcção da Tuna, o que facilitava o diálogo com os organismos e com a Reitoria, assumi a liderança do projecto e a Presidência da Direcção Provisória do futuro GEFAC apoiado por um grupo que pertencia a ambos os organismos e por alguns que pertenciam apenas a um deles. Na Tuna tinha o apoio forte do Rui Pato, que era o Secretário da Direcção, membro do Conjunto de Câmara Carlos Seixas e do Conselho Artístico e, sobretudo, era uma Autoridade Musical muito prestigiada, que ajudara a Tuna a tornar-se mista. Na Direcção provisória do novo organismo, tinha o apoio da Vice-Presidente Fátima Saraiva que não dançava nem tocava e de outros e outras com menos disponibilidade administrativa, porque tinham de ensaiar como o Rui Jorge, a Lena e a Milena, a Zaida, o Leão, etc, e assim se assegurou uma solução de uma transição pacífica e «protegida» para a independência.
Já agora, podemos falar do nome GEFAC. Quanto a chamar-se GRUPO, havia um certo consenso, a tradição do GUDR já se chamar grupo, o facto de todos os GRUPOS folclóricos de chamarem grupos, nome preferível a «rancho» não havia problema. Grupo não comprometia, podia subsistir mesmo se fosse recusada a homologação como organismo circum-escolar, sujeito à lei em vigor que atribuía poderes discricionários ao Ministro da Educação até para homologar ou não, os corpos gerentes eleitos.
Já UNIVERSITÁRIO, como se chamava o GUDR, parecia demasiado pretensioso e elitista, sendo preferível que se chamasse DA ACADEMIA DE COIMBRA, um nome mais «associativo».
DANÇAS, como o GUDR, era demasiado «esforço fisico» enquanto FOLCLORE tinha um ar mais intelectualizado, que se reforçava se as preocupações do grupo
incidissem em estudos de «etnografia», muito do agrado da Fátima Saraiva que não dançava e associava os estudos de etnografia à geografia que estudava na Faculdade de Letras.
E foi assim que o GEFAC foi baptizado GRUPO DE ETNOGRAFIA E FOLCLORE DA ACADEMIA DE COIMBRA enquanto se aprovava a independência se
estabelecia a lista dos sócios (eu era o sócio número 1 até outro se apropriar da
primeira posição ordinária), a lista dos corpos gerentes, uma intensa actividade de visitas de cumprimentos e de pedidos de apoio logístico, etc.
Nesta intensa actividade diplomática que começou pelos organismos, que
prontamente «reconheceram» o novo grupo e lhe cederam o uso partilhado de salas de ensaio e administrativas, tiveram um papel importante algumas das colegas mais
bonitas e vistosas que de mini-saia e sorriso em punho ajudavam a aplainar resistências e a obter consistências.
8 - A legalização e as relações com as autoridades académicas,
Embora eu fosse aluno de Direito, sujeito à repetição constante da ideia da superioridade do direito positivo e à quase irrelevância do direito natural, fiquei chocado e surpreendido com o efeito produzido no Reitor e no Secretário da Universidade por um argumento que improvisei em resposta a um rotundo não do Reitor à ideia de legalização do novo organismo de acordo com a legislação circum- escolar.
Comecei por pedir uma audiência como Presidente do novo organismo para a Direcção Provisória apresentar cumprimentos e expor alguns problemas e a resposta foi negativa. Usei então o título de Presidente da Tuna, pedindo uma audiência para expor as razões pelas quais a Tuna achava que as danças tinham de se autonomizar e fui recebido pelo Reitor e pelo Secretário da Universidade, mas logo de início o Reitor declarou-me que já tinha informação do Ministro de que seria recusada a aprovação de estatutos e a criação de qualquer novo organismo circum-escolar e que só a Comissão Administrativa da AAC podia voltar a criar secções que constassem dos Estatutos.
Respondi, na emergência, que não havia grande problema em o GEFAC ser ou não legalizado, até era bom para o GEFAC não estar submetido à legislação circum- escolar, pois não havia coisa mais anti-folclórica do que um grupo folclórico precisar de estatutos e de aprovação para cantar e dançar e dei até o exemplo de vários grupos de norte a sul que me vieram à cabeça, dos grupos de fados de Coimbra que cantam e fazem serenatas, existem e gravam discos, ou das trupes que executam a praxe, ou as repúblicas que tinham hinos, bandeira e brasões próprios, sem serem reconhecidos pelo governo.
Fiquei surpreendido com a surpresa deles e perguntei se, ao menos, viam algum
inconveniente em que a Tuna deixasse de ter danças regionais e concluí que estavam confundidos porque não podiam dizer que não.
A confusão pareceu-me ainda mais completa quando obtive o seu assentimento de que não estavam em causa os novos corpos gerentes, pois se o Ministro da Educação tinha homologado o meu nome como Presidente da Tuna, isso era uma garantia de que não haveria razões de confiança para que não fosse homologado como Presidente do GEFAC. Se os dançarinos podiam dançar sob a autoridade da Tuna, porque não poderiam dançar nos espectáculos de outros organismos?
Saí com a ideia de que o GEFAC não iria ser legalizado, com estatutos aprovados, mas não podia ser ilegalizado, porque possuía uma legitimidade própria não
dependente do direito positivo — um grupo folclórico existia porque existia pela
simples vontade dos seus membros cantarem e dançarem em qualquer parte, e isto era tão natural que não era proibível, porque mesmo na lógica da política proibicionista e
autoritária do govemo seria considerado ridículo proibir uma coisa naturalmente apolítica.
Também não fazia sentido autorizar os outros organismos a terem uma segunda parte do espectáculo com grupos de fados e proibir-lhes que tivessem danças regionais.
As reuniões seguintes, pedidas ao Reitor para analisar alguns detalhes pendentes da Independência das danças da Tuna eram passadas ao Secretário da Universidade, que ficava tão encantado com as lindas colegas que me acompanhavam com magníficas mini-saias, que, no meio de conversas fúteis e pormenores mais sérios, dizia a tudo que sim e, para surpresa dele, eu fazia um resumo das conclusões a que chegáramos e que eram, em vários casos, favoráveis aos interesses do GEFAC.
Não foi pois com fatos de Minho ou de Nazaré, mas com simpatia, sorrisos e mini- saias que se conseguiram alguns êxitos diplomáticos.
Entretanto interessava a alguns organismos de esquerda apoiar o GEFAC, o que significava o fim da rápida expansão da Tuna, retirava-lhe peso e importância, número de membros, iniciativa e influência, pelo que acederam a emprestar salas de ensaio e de direcção ao GEFAC. Também o Orfeão, isolado à direita, viu uma oportunidade de quebrar o isolamento e atrair para a sua influência um grupo que não seria politizado e cuja conquista por dentro estava a ser preparada por um grupo mais à direita.
Passada a primeira fase, em que era útil que eu presidisse aos dois organismos, porque podia utilizar nas relações «diplomáticas» iniciais o chapéu mais conveniente e que menos resistências provocasse, era altura de convocar eleições e passar a ter um papel mais discreto, como Presidente do Conselho Fiscal.Todos tinham interesse em que a separação da Tuna se consumasse e marcaram-se eleições, até com a atenta expectativa do Orfeão que depositava esperanças eleitorais num grupo mais à direita que veio a falhar.
Entretanto o GEFAC reforçava a sua identidade e unidade, mais namoros e interesses comuns solidificavam um grupo coeso, que dançava furiosamente logo que ouvia umas notas de acordeão e já mostrava ser imparável.
9 - Os corpos gerentes, a logística, os apoios dos organismos
Foi assim que a Direcção passou a ser presidida pelo Rui Jorge com a Fátima Saraiva a continuar Vice-Presidente, numa Direcção em que creio que as mulheres estavam em
maioria, mas o melhor é consultarem as actas porque já passaram mais de 35 anos e a minha memória está constantemente a ser ocupada e desocupada por outras recordações.
A logística fornecida por outros organismos mistos que encorajavam o nascimento de mais um organismo misto, foi prudente nos termos provisórios de empréstimo e de utilização de salas, mas um apoio cordial e estável, ou estabilizado com as mudanças de direcções habituadas ao status quo.
Assim subsistiu um organismo ilegal, não reconhecido, mas que podia afirmar que não havia nada de mais anti-folclórico do que pedir autorização para dançar.
10- Orquestra e bailadores, estudos e interlocutores
Confesso que o GEFAC me deu muito gozo a criar e que tive imensos pequenos prazeres como actor e observador em diversos momentos, mas no GEFAC fui também um poço de falhanços.
O primeiro falhanço é que não pertenci à orquestra, por várias razões, a primeira era que a orquestra não tinha descanso, tocava com os do Minho e com os da Nazaré e eu precisava de tempo para outras tarefas, depois porque eu tocava bandolim na Tuna e no GEFAC o que era preciso eram violas, cavaquinhos, acordeões, baixos, ferrinhos e vários instrumentos populares em que outros levavam vantagem e também não me apetecia tocar apenas em part-time.
O segundo falhanço foi nunca ter dançado. Na altura não podia dançar o Minho ou Nazaré, porque tinha um problema de circulação nas pernas que me provocava cãimbras quando fazia esforço, corria ou saltava. Saí-me mal de uma ou duas experiências e percebi que não devia continuar.
O terceiro falhanço é de outra ordem. Havia demasiadas raparigas bonitas e interessantes no GEFAC. Quando assistia aos ensaios, adorava a graciosidade de algumas bailadeiras a voltearem, mas não me decidia a propor-me a nenhuma como par, enquanto elas não tinham par certo. Confesso que a certa altura me senti fortemente atraído por uma minhota, senti que fui correspondido mas fui muito demorado nas minhas hesitações, porque estava nessa altura prisioneiro de outros «amores impossíveis» e acabava por me realizar melhor na intriga associativa e nas tarefas políticas, diplomáticas e administrativas de impor o GEFAC, a par de uma variedade de outros interesses que prosseguia na Tuna e noutros organismos.
Pensei dedicar-me a impulsionar a parte «intelectual» do objecto do GEFAC, os estudos etnográficos, com a Fátima Saraiva com quem já partilhara algumas das intrigas e construções político administrativas da fase anterior de instalação, mas qualquer de nós tinha demasiados interesses alternativos para termos realmente tempo comum para estudos desta natureza e outros valores mais altos se levantavam nos meios associativos que me atraiam mais.
11 - Um excelente substrato humano
O GEFAC estava lançado e não mais pararia. A Reitoria e as autoridades
académicas perceberam que não era a lei que impedia a existência e a vida do
organismo. Os Gefaquianos perceberam que podiam passar sem a lei e que a
solidariedade interna e o projecto comum é que eram importantes.
A solidariedade académica dos outros organismos compensou em legalização de facto
a ausência de legalização das autoridades.
12- O GEFAC existe, resiste, persiste e comemora
Em 1969-70 estava cada vez mais atraído pela Informática e por Lisboa para onde imigrei e passei a acompanhar a vida do GEFAC sobretudo pelos encontros periódicos dos que para Lisboa migravam e a acompanhar indirectamente todas as outras actividades do GEFAC de cada geração e das actividades comemorativas das gerações anteriores acumuladas com um distanciamento que resulta de nunca ter dançado nem tocado no GEFAC, de ter participado pouco na essência da vivência comum do grupo e de sentir que fui mais parteiro do que outra coisa. Mas garanto-vos que o pouco que fiz foi muito divertido, sentia que estava integrado no gozo que todos tínhamos e deu enormes frutos a longo prazo.
Lisboa, 28 de Abril de 2003
José Manuel Matos Pereira
sábado, 27 de junho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Caros GUDRSs e Tunos:
Li alguns comentários sobre o GUDR e a sua ligação ou não à Tuna e ao GEFAC, que já não é do meu tempo!
Antes de mais, quero aqui frisar, mas sem qualquer complexo de um lado ou outro, que nunca misturei praxe/tradições ou assuntos académicos com política. Portanto, desde a esquerda à direita respeito todas as tendências. Não gostaria era que, qualquer uma delas, por questões políticas, as quisesse e continue a querer, dominar qualquer desses Organismos ou Tradições! E para demonstrar (o que alguns possam já estar a pensar), protestei contra o 40900 e fui porta bandeira da Tuna nessa manifestação, o que mais tarde me deu alguns dissabores, que nunca anunciei (a fazer-me de revolucionário). Até me obrigaram a ir para a guerra colonial com 36 anos, com um filho de 8 anos e acabado de iniciar a minha vida profissional em 1972!) Depois deste pequeno esclarecimento eis o que me parece poder dizer; Quando em 1955 vim para Coimbra e para a Tuna, na verdade não havia colegas do sexo feminino. Chamarem a isto "machismo" só por desconhecimento da sociedade de então. Não vou explicar, mas perguntem aos vossos avós e eles dir-vos-ão porquê. Pois bem, nessa altura eu comecei a frequentar as letras onde o Coral, então regido pelo Dr. Francisco Faria, tinha nas variedades "Danças Regionais". Não eram uns "parvinhos" aos saltos, como ouvi num comentário… As Tradições e a História de um País, são o que o enriquecem e identificam: pobre é do País que esquece ou quere fazer esqucer, a sua História e as suas Tradições! Pois segundo o Dr. José António Soares, no seu livro Rua Larga, tudo terá tido início na Secção Feminina da A.A.C. onde as colegas Maria de Lurdes Dias, Maria Alice Faria e Maria Adriana Moura e Silva procuraram fundar um Grupo Universitário de Danças Regionais. E se o pensaram, melhor o puseram em prática. Em 11-12-1956, juntamente com o Orfeon Misto da Universidade de Coimbra, constituíram-se, em Assembleia Geral convocada para o efeito, como Secção da A.A.C. Uns dias antes,em 7 e 8 de Dezembro, já haviam sido convidadas pela Direcção da Tuna para actuar em dois espectáculos, respectivamente em Coimbra e Arganil. No dia da sua fundação oficial demos um espectáculo a favor da Casa dos Pobres, então no Pátio da Inquisição. Nesta altura, como é fácil de calcular, tinha já Direcaão, conselho Fiscal e Conselho Artístico, do qual, por sinal, eu fazia parte. A parte musical, quando davam espectáculos com o Orfeon Misto, era constituída maioritariamente por elementos da Tuna. As Danças, nesta altura, não faziam parte da Tuna. Demos depois vários espectáculos no Casino da Figueira e noutros locais, normalmente com o Orfeon Misto. Eu pertenci, portanto, aos dois Organismos, Tuna e Danças, sendo destas, um dos fundadores.
Devido ao elevado nível artístico das Danças (que não dançavam só Minho, mas Algarve, Beiras, etc. foram, em 1958 convidadas pela Direcção da Tuna, da qual eu também fazia parte, para se deslocarem a Angola acompanhando-a na digressão que a mesma ia fazer, com início em 5 de Agosto e finais em 25 de Setembro. Para essa deslocação e apenas por motivos processuais, foram inscritas na Tuna, as colegas: Maria Adriana Moura e Silva, Maria do Céu Araújo e Silva, Maria de Fátima Feytor Pinto, Maria Hermínia Dias Araújo, Maria Teresa Neto Costa e Maria Tereza Newton Almeida Santos.
Quando saí de Coimbra as Danças ainda existiam e, pelo que vim a saber, o GEFAC teria sido constituído com base no "falecido" ou "inerte" Grupo Universitário de Danças Regionais. Daqui em diante… não me posso pronunciar.
Um abraço
Caros CUDRs e Tunos:
Sobre a Tuna também li alguns comentários que, a meu ver, ou são mal intencionados ou enfermam por desconhecimento. Claro que a Tuna . dentro da Academia, era a única que existia - e parecia uma Orquestra! É certo que desde há muitos anos - diria que foi assim, quase desde o inicio -. Mas atentemos: Quantos estudantes, nessa altura tinham possibilidades de aprender música? Os que tiveram a possibilidade desde a infância (muito poucos), aqueles, igualmente poucos, cujos pais sabiam música, os que vinham do Seminário e a grande maioria, da qual eu fazia parte, que trazíamos os rudimentos musicais do liceu! Era depois, à custa de ensaios, da boa vontade e paciência dos que sabiam, que íamos tentando tocar alguma coisa. Porém tinha uma grande influência o "maestro". E nós, nos anos 50 tivemos a sorte de ter o Emgº Alves Ferreira que, além do muito que sabia de música (tanto como de linguagem vicentina)era um grande companheiro e amigo e nos obrigava, ensaio atrás de ensaio, a tocar diria que muito razoavelmente bem. Daí o termos um conjunto que, em condições normais e principalmente nos espectáculos de maior responsabilidade, actuássemos com bastante aceitação. Dos périplos que fizemos no Vera Cruz, circubdando toda a Africa e o sul da Europa e no Segundo, só em Angola, de norte a sul, demonstrámos ter um agrupamento de alta qualidade. Leiam o que sobre a Tuna escreveu, na imprensa de Luanda em Agosto de 1956 o Crítico Musical Dr.José Blanc de Portugal, que não estudou em Coimbra (o que o poderia influenciar emocionalmente), nem nunca tinha ouvido a tuna! Não éramos pois assim...tão maus! Quanto aos fados e seus elementos, TODOS (excepto os cantores) eram elementos da tuna! E não é por vaidade ou qualquer outro interesse senão o de fazer justiça, que afirmo, sem dúvida alguma, que naquela década tivemos, senão os maiores, dos maiores grupos de Fados de Coimbra. Dou-vos dois exemplos de cada um dos naipes e podereis, através deles, encontrar os restantes: António Portugal, Jorge Tuna, Levy Baptista e Manuel Pepe, Armando Goes e Zeca Afonso… E fico por aqui. Abraços
Tanto quanto percebi, estes comentários foram feitos por mim (excepto alguns pormenores de "Porta Férrea" que gostaria fossem mais explícitos, para eu também aprender, nomeadamente no que concerne aos "comentários mal intencionados" ou que enfermam por desconhecimento"). Se todos estamos a querer aprender com verdade devemos corrigir-nos uns aos outros no bom sentido e não com ideias pre concebidas! Eu relatei aquilo de que tenho conhecimento directo e documental. Portanto a "Porta Férrea" se tem outros conhecimentos verdadeiros, documentados só tem que os demonstrar, rebater o que escrevi e eu ficar-lhes-ei muito grato pela correccão. "Meias palavras" só levam à desconfiança e aos tais "comentários mal intencionados" o que, da minha parte, não existem. Por outro lado, os comentários devem ser publicados na íntegra e não por "partes", o que pode levar a diferentes interpretações o que, para quem quer consolidar a sua história, não me parece correcto. Esta a minha ideia.
Saudações académicas
José Paulo Soares
Postar um comentário